Eu sou goiana. Nada mais natural, pra mim, que exaltar o frango, se for galinha caipira melhor, e sempre com algum de seus melhores amigos, milho, guariroba (gueiroba), pequi, é claro, enfim, tudo o que tiver de comida em Goiás vai ter a opção de recheio de frango com esses trem.
Nascida e criada com essa fixação por frango, mal sabia eu que em São Paulo as pessoas tinham a mesma coisa, só que com linguiça calabresa. Foi só aqui que conheci o pão de frios (adivinha qual frio), a calabresa acebolada (francamente um aperitivo de preguiçoso), a coxinha de calabresa (como pode), e outros pratos que não me interessa agora ficar enumerando.
Fato é que eu nunca tive nada contra, mas assim, nenhuma loucura pela calabresa também. Logo que me mudei para São Paulo, porém, uma certa inimizade surgiu na minha cabeça assim que eu caí na primeira pegadinha que os paulistas (pelo que descobri mais tarde, apenas paulistanos e entorno) gostam de pregar em goianos, mineiros, enfim, em qualquer desavisado que venha de fora de SP: a pizza de calabresa.

Não tinha semanas que morava aqui quando fiz o pedido, fui receber toda feliz, empolgada, mas como é possível, esqueceram o principal ingrediente de qualquer pizza, é isso mesmo?, não tem queijo.
Eu, sozinha, uma pizza de 8 pedaços, nenhum queijo.

Aqui cabe um parêntese para informar que o goiano, ao contrário da crença popular, é tão fascinado por queijo quanto o mineiro, e afinal de contas, somos vizinhos, irmãos.
Imediatamente olhei o cardápio, é isso mesmo, pizza de calabresa: molho de tomate, calabresa em rodelas, cebola. Um absurdo, uma piada de mau gosto, quase tão terrível quanto calabresa sem cebola, e vou falar disso agora.
Eu faço parte da Sociedade das Pessoas que Amam e Triplicam a Quantidade de Alho e Cebola nas Receitas, portanto tendo a ser intolerante com quem não gosta de cebola, a gente tenta respeitar, claro, mas não é fácil, e aí vem a tese deste post:
calabresa só é gostosa com cebola
Eu não sou chef, sequer fiz algum curso de culinária na vida, mas eu sinto – e já ouvi falar – que a cebola tem o poder de cortar o gosto extremamente gorduroso da calabresa, acontece com vários pratos, como o bife acebolado, me esqueci de todos os outros exemplos, mas você já entendeu o que estou dizendo.

Não é exagero dizer que eu acho quase impossível comer pizza de calabresa sem cebola, o gosto é extremamente forte e enjoativo, é a cebola que equilibra o prato. E essa discussão surgiu na minha cabeça ontem, como seria bom despir os não-comedores-de-cebola de seu preconceito para que experimentassem uma deliciosa pizza de calabresa bem acebolada, certamente seu terceiro olho se abriria, quem sabe até solucionariam alguma equação matemática sem resposta há mais de século.
Me inspirei a falar disso porque há dois dias eu estava lutando contra a vontade de pedir uma pizza, mas finalmente aconteceu, e ela era exatamente como minha mente imaginava. Perfeita em cada detalhe, e com cebola.

Voltando à terrível pizza sem queijo, na ocasião, naturalmente compartilhei minha desventura, indignada, com meus colegas, ouvi em uníssono: ah, mas você deveria ter pedido toscana, como assim, toscana, quem teria uma ideia tão malévola de fabricar um sabor de pizza sem queijo, já é um milagre o motoboy chegar com a cebola e as rodelas dentro da massa, devido à ausência de cola, que no caso seria precisamente o queijo, e aí aprendi a primeira e maior lição de como me comportar em São Paulo, mas agora vem o segundo problema, toscana nem sempre é a mesma coisa que calabresa + queijo, não senhor:
- Às vezes a calabresa é moída, o que pra mim é suficiente para querer começar a chorar;
- A mussarela, muçarela, falei da palavra em post anterior, geralmente vem por cima da calabresa, o que não é tão grave quanto o item 1, mas demonstra clara má vontade do povo paulista(no) perante nós, estrangeiros;
- Pode ser que não haja cebola nos ingredientes, e aí é de chorar mesmo, jogo a toalha.
(Por isso mesmo é que eu sempre levo mais de uma hora decidindo onde comprar uma pizza de calabresa.)

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