crime, investigação, imprensa e pix dos fiéis

Outro dia terminei de ler Dragão Vermelho, de Thomas Harris, um dos livros da saga de Hannibal Lecter, junto com O Silêncio dos Inocentes e Hannibal – A Origem do Mal. Ao mesmo tempo, estava (estou) ouvindo o podcast do Ivan Mizanzuk, Projeto Humanos, temporada Altamira, que conta a história de assassinatos ocorridos no Pará no fim da década de 80 e começo da década de 90. É impossível não comparar a ação da polícia e a tecnologia disponível nos dois casos, apesar de Dragão Vermelho ser, naturalmente, uma obra de ficção.

Em Altamira, temos um processo que levou dez anos para que se iniciassem os julgamentos, provas que eram constituídas principalmente (somente?) por testemunhas – muitas das quais não foram ouvidas, investigações que foram feitas porcamente, seguindo pistas falsas, confiando em relatos de telefone-sem-fio, sem nunca se chegar à fonte, perícias que não foram realizadas por falta de recursos, provas que sumiram, documentos vitais que nunca foram juntados ao processo, e assim por diante1. Surreal.

Em Dragão Vermelho, por sua vez, os recursos parecem ser ilimitados: voos acontecem várias vezes por dia, passagens são compradas em cima da hora, gasta-se com disfarces, envia-se provas e documentos para lá e para cá, tudo é feito com urgência; para se ter certeza de que as evidências serão analisadas minuciosamente, o próprio chefe da operação viaja com elas aos laboratórios em que trabalham os melhores especialistas no ramo, estes investigam poeira em pedacinhos de papel, micropartículas de detergente azul, fiapos de lã em rodinhas; destrói-se parte da estrutura de uma prisão, apenas para não se levantar suspeitas, gasta-se horrores subornando jornais, vidas são perdidas pelo caminho, e tudo se resolve em mais ou menos vinte dias. Irreal.

Muitas vezes me peguei ouvindo o Projeto Humanos e refletindo sobre como seria se houvesse apenas um pouquinho mais de recursos disponíveis, ou se a investigação fosse feita de forma diligente, indo a fundo a partir de cada relato coletado, por mais irrealista que seja.

Ouvindo o podcast, também tive uma ideia melhor da proporção em que matérias de jornais e revistas podem carregar informações falsas e enfatizar fatos irrelevantes, e até o momento estamos falando do início dos anos 2000, mas isso obviamente acontece até hoje, e tenho um exemplo:

matéria sobre um grupo que aplicava golpes prometendo retornos estratosféricos; via

Eu vi algumas matérias como essa nos últimos dias, e embora o golpe seja absurdo por si só, o que mais me chamou a atenção não foi o ganho prometido pelos golpistas, e sim a insistência dos jornais em mostrar quanto é “um octilhão de reais”, quando os golpistas prometeram, segundo as próprias reportagens, trezentos e cinquenta bilhões de centilhões de euros, uma quantia que não apenas não existe no mundo, mas que somente o coração puro de uma criança seria capaz de inventar, dentro de alguma brincadeira de decidir o futuro, como aquelas que definem quantos filhos você terá, com quem se casará e em que carro andará.

E, se um octilhão tem 27 zeros, um centilhão tem:

imagine, então trezentos e cinquenta bilhões vezes isso, em euros; via

O pastor Osório Lopes, apontado como um dos golpistas, tem um canal no YouTube em que pede doações de, imagine só, cem reais de cerca de cinco mil fiéis, “pois o pastor também passa por dificuldades”, e a coisa é arquitetada, você faz o pix e preenche um formulário do Google com seus dados pessoais; o pastor promete três medalhões em troca desse ato de fé, e inclusive dá uma data para “os pagamentos” que os fiéis receberão; em outro vídeo (áudio) postado em junho desse ano, o pastor desmente boatos de que está preso, sugerindo que os fiéis já são maduros e já passaram dessa fase de acreditar em difamações; no geral, os áudios e vídeos gravados por ele estão todos na linha de acalmar as pessoas que depositam dinheiro, porque, você já deve imaginar, o retorno ainda não chegou.

“Eu quero pedir a compreensão dos 850 que entraram com mil reais (…), agradeça a Deus pelo que você teve a condição de nos ajudar. Agora vamos dar espaço para 50 pessoas que não têm condição de dar mil reais (…), os primeiros 50 que entrarem com trezentos reais fazem parte [dos 300 de Gideão].”

Num vídeo intitulado “PR. OSÓRIO FALA SOBRE SEU BANCO PAGADOR!”, ele explica que estamos ligados ao sistema quântico, que seria uma plataforma de tecnologia extremamente avançada, e que esse sistema é contra lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa; ele enrola os inscritos, dizendo que as “operações” podem levar mais tempo por conta de feriados que acontecerão na semana, e ressalta que pessoas que estão com RG vencido (com mais de 10 anos) não conseguirão receber as grandes quantias em dinheiro.

Antes de começar a desativar os comentários de seus vídeos, ainda era possível ver pessoas reclamando, apoiando e até mesmo analisando sua linguagem corporal:

Francamente, não dá.

  1. No momento em que escrevo essa postagem, ainda não terminei de ouvir o podcast, motivo pelo qual ainda não conheço todos os pormenores. ↩︎

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