Este não é um guia de como reproduzir a dieta em casa, e eu aviso por mais que seja improvável alguém querer se submeter a isso depois de ler o post até o fim. Eu retirei as informações do livro “A Dieta da Longevidade“, de Valter Longo, que deve ser o ponto de partida para quem quiser testar o método.
Fasting-mimicking diet, ou “dieta que imita jejum”, referida, daqui em diante, como FMD, é um protocolo de cinco dias de sofrimento que um pesquisador chamado Valter Longo criou após muitos anos de pesquisas na área, e eu sei disso porque li seu livro e me interessei bastante pelo assunto. O principal benefício da FMD é dar uma resetada nas células, não sei explicar muito bem, mas tem a ver com autofagia, baixa ingestão de proteínas, proteção do corpo para sobreviver, e é bom para quem tem (risco de) doenças cardiovasculares, autoimunes, câncer, coisas do tipo. Há, também, relatos de perda de peso, menor compulsão alimentar ao voltar à vida normal, entre outras maravilhas que o dr. Longo descreve.
A bem da verdade, esse foi o segundo ciclo de FMD que eu fiz. O primeiro foi há cerca de dez meses, sem ter lido o livro, procedimento altamente desincentivado. Perdi 1,5 kg, uma quantidade expressiva para minha taxa metabólica basal e para o curto período de tempo da dieta. Fiz como o início de um processo de emagrecimento que durou cerca de seis meses e que deu bastante certo. É possível ver alguns posts aqui que retratam o que eu costumava comer nessa época. No meu primeiro ciclo de FMD, como eu não havia lido o livro do Valter Longo, não segui à risca suas recomendações, e mesmo assim pude perceber alguma melhora na minha disposição, de modo geral.
Segue o relato de cada dia deste último ciclo, feito em novembro de 2023:
Dia 1
Comecei na terça-feira porque no domingo à noite pedi pizza e precisei terminar de comê-la na segunda, só deus pode me julgar; não me sentia muito bem nesses últimos dias, então fiquei em dúvida se faria ou não a FMD, mas como tinha comprado os alimentos, ou seja, vegetais, ou seja, perecíveis, tive que encarar de uma vez. Ressalto que não é indicado começar dessa forma, comendo pizza na noite anterior, só gente estúpida faz isso, o dr. Longo diz que é bom fazer uma preparação um dia antes de começar, comendo coisas mais leves e nutritivas, evitando certos alimentos, mas meu espírito estava fraco demais para isso, quase como se pudesse prever o que estava por vir.


Com as cenouras, tomate, pimentão e outros alimentos que chegaram depois (jiló e abóbora) eu comecei a preparar, e aqui digo comecei porque eu não tinha ideia do trabalho que isso daria com apenas um fogãozinho elétrico e um mini-liquidificador, uma versão vegana e aprovada para FMD do caldo que minha mãe faz, e posso disponibilizar a receita se o leitor1 quiser; o preparo começou na segunda à noite e terminou na terça, bem na hora do almoço, momento em que tomei o caldo com cebolinha e sementes de abóbora, estava gostoso, mas eu já sofria por não ter tomado meu clássico leite com café de todas as manhãs.
De noite foi comidinha de boteco, é preciso ser sincera e dizer que estava uma delícia, e que eu comeria grandes quantidades disso, (e acabei comendo mesmo, nos dias seguintes, e me arrependi de assim ter desejado), especialmente pela fome que passei no primeiro dia, mas já esperava que fosse passar, pois o dr. Longo nos alerta sobre isso e avisa que vai melhorar com o tempo. Azeitonas, castanhas, palmito (não achei nada que desabonasse), e meu favorito, petisco de grão de bico, também posso passar a receitinha.


Eu repeti a porção de azeitonas + palmito.
Dia 2
Não acordei com tanta fome, mas estava bastante desanimada e desgostosa com a vida, logo percebi que minha energia também estava baixa. Valter Longo também prevê isso, inclusive uma de suas recomendações é que não se pratique exercícios físicos durante a FMD. Meu almoço ficou bonito, colorido, mas não me agradou, e na verdade me deu ódio, exatamente igual a palhaços de circo.


O caldo é o mesmo de ontem, a salada temperei com muito limão, erro de principiante, depois comi 30g de castanha de caju, e o arrependimento por ter comprado a versão sem sal bateu.
De noite comi a mesmíssima coisa que ontem, com a diferença que eu já estava muito ansiosa pelo grão de bico, como se aquilo fosse a oitava maravilha do mundo gastronômico, como se minha vida dependesse daquilo, se bobear dependia, e o curioso é que não deu vontade de fast food, e sim de um franguinho grelhado, um omelete, uma tapioca, o que me consolava era saber que faltavam só mais três dias para acabar, mesmo motivo que me entristecia, pois três dias é bastante tempo quando se come apenas comidinha de barbie.

A essa altura a autofagia já estava acontecendo, pois senti que a lombriga maior já havia comido a menor.
Dia 3
Eu tinha certa segurança de que no terceiro dia de FMD eu já estaria com pouca fome e muita energia, mas o contrário se revelou verdadeiro, e meu humor piorou ainda mais; cabe mencionar que estou passando por uma semana complicada com meu telefone celular, que surtou depois daqueles dias sem energia, pegando carga em tomadas duvidosas, e que meu humor estaria ruim ainda que eu pudesse comer de tudo.

Fiz um prato de cogumelos e couve-flor, uma gororoba cheirosa e com gosto bom, usei cebola, alho, shoyu, gengibre, cebolinha, azeite. Preferi isso ao caldo dos dias anteriores, e agora começo a me lembrar de que isso aconteceu no primeiro ciclo: as comidas repetidas vão enjoando, e chega uma hora que você prefere ficar sem comer nada a ter que comer a mesma coisa de novo, olho para as saladas na minha geladeira com ódio, detesto a personalidade do alface, do brócolis, não sei quando terei coragem de tomar caldo novamente, começo a repelir castanhas de caju e amêndoas, mas ainda estou tranquila com meu grão de bico, palmito e azeitonas, que foram, inclusive, meu jantar. Quase choro ao perceber que faltam dois dias completos. Recebi convites para sair, mas não tenho energia ou força de vontade para por pé fora de casa, imagine ficar sem comer dentro de um restaurante, lugar cujo serviço prestado é justamente a alimentação, eu não sou palhaça de ninguém além de mim mesma. Estou andando mais devagar na rua. Estou sempre nauseada.2

Dia 4
É quase um milagre ter chegado ao quarto dia, só que nunca mais vou querer ver caldo de abóbora na minha vida, tenho dois potes no congelador, lá ficarão. Acordei, agora sim, sem fome, e com mais energia que ontem. Pude andar até o ponto de ônibus em velocidade quase normal para o meu padrão (papa-léguas). Comprei um celular novo, e parece que o cérebro vai desanuviando com cada problema resolvido. Sem dúvidas, esse ciclo tem sido mais difícil que o anterior, e eu acredito que isso se deva à maior restrição que estou fazendo agora: no outro, eu comia bolachinhas integrais de 7 grãos, que estavam sendo meu sustento principal, e agora descubro que bolachinha não pode, de forma que meu sustento atual está no grão de bico, que, com toda a sinceridade do mundo, e sem querer ser a pessoa que compara brownie a uma maçaroca de banana com cacau, é petisco perfeito pra comer bebendo uma cervejinha, por exemplo.
Não tenho fotos do grão de bico no almoço, porque não tinha um telefone celular para fotografá-lo, mas a essa altura o leitor já sabe e entende o conceito de grão de bico. De noite, pensei: e pipoca? isso entra na FMD? e pesquisei na internet, e disseram que sim, que tem muita fibra, que é saudável, algo sobre ser um amido resistente, e então fiz uma quantidade de pipoca com azeite que ficasse dentro das minhas calorias.

Dia 5
A dieta está se parecendo, finalmente, com o ciclo anterior. Acordei disposta, não super-disposta, mas tranquila, e sem fome alguma. Como não tinha meu leite com café de manhã, fiquei me revolvendo na cama, e lendo, lendo, lendo. Arrumei casa, troquei lençol, lavei roupa, tomei banho, bordei (meu novo hobby), li um livro físico que estava meio empacado aqui, enfim, fiz muitas coisas que necessitam de energia vital (stamina), tudo em jejum. Preciso ser honesta e dizer que estava preferindo não comer nada a ter que repetir as coisas dos últimos quatro dias.
E daí, lá pelas oito da noite, fiz uma baciada de pipoca, simbolicamente um troféu por ter aguentado 120 horas de tortura, pensei seriamente que nunca mais queria ouvir falar em FMD, que coisa de maluco, que sensação de ter perdido cinco dias de vida, essas coisas.

Pós-FMD
Pensei, sinceramente, que me acabaria de comer no domingo, o primeiro dia de liberdade desta pobre alma, mas não. Surpreendentemente, tomei meu leite com café, e não café com leite, como em geral se diz, porque vai mais leite que café na minha mistura, portanto leite com café, e não coloquei açúcar, como safadamente estava fazendo nas semanas pré-FMD. Imagine só, perder todo o esforço que tive que fazer nos últimos dias, não senhora, vamos na versão light mesmo.
Para o almoço, queria usar o que já tinha na geladeira, então fiz um purê de batata na versão mais saudável que consegui, e não sei como o leitor pinta a imagem de um purê em sua cabeça, mas o meu é rústico e consistente, veja:

Se, por acaso, couber dica de culinária neste espaço, aqui vai ela: pique cebola e alho num triturador manual e congele em forminhas de gelo, na hora de fazer o arroz é só jogar o cubinho, economiza muito tempo no dia-a-dia, aqui a cebola é roxa pois era a que tinha sobrado da FMD, e eu é que não vou desperdiçar uma cebola por conta de sua cor.

Os dias seguintes estão seguindo da mesma forma, com bastante consciência de tudo o que estou comendo, sem estufar o estômago por gula, um misto de não querer jogar meu trabalho fora e de não precisar comer o mundo, pois aprendi que, afinal de contas, mesmo me mantendo afastada por cinco dias, a comida não fugiu de mim.
Considerações finais
A dica primordial para quem for fazer a FMD é que escolha cinco dias em que fique o máximo de tempo possível sem precisar sair de casa; eu peguei de terça a sábado e sofri indo trabalhar debaixo de sol quente; feriados prolongados são bons para isso. E jamais escolha um período em que haja algum evento social.
Quem tem diabetes e faz uso de insulina não pode fazer FMD por conta própria, recomendo ler o livro do dr. Longo e conversar com seu médico. Quem tem transtorno alimentar não deve fazer FMD. Quem tem alguma doença crônica precisa de acompanhamento médico.
São cinco dias muito sofridos. Não é legal e nem divertido. Tenha a certeza de ter deixado as pessoas mais próximas cientes. E seja firme até o fim, a menos que comece a passar mal. Sentir cheiro de hambúrguer e o estômago começar a resmungar não é passar mal. Digo isso porque, se você escorregar depois de um dia, dois, na FMD, terá sido um desperdício de tempo e de força de vontade, pois o dr. Longo explica que o processo de autofagia e tudo o mais que acontece no organismo leva um tempo para começar, ele faz a seguinte analogia: FMD está para um dia de jejum assim como uma maratona está para uma caminhada no parque. Ou seja, você até tem alguns benefícios, mas nem se compara a fazer a jornada completa.

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