Eu não sei quais são as crendices enraizadas na mente do leitor deste blog, mas uma das coisas em que acredito – e ignoro sempre que se prova errônea – é que a segunda-feira dá o tom da semana, não o domingo, não o sábado ou a terça, mas a segunda, e a forma como a minha em particular começou1 está me deixando desconfiada com o que vem por aí.
Se eu ainda fosse a pessoa dos signos jogaria aqui que sou de virgem, arroba que foi por muito tempo minha conta do Twitter e que me rendeu milhares de seguidores, provavelmente por acharem que eu falava de astrologia, e cheguei a fazer algumas enquetes na época que constataram que até 80% das pessoas que me seguiam eram, sim, de virgem, uma loucura que o algoritmo do Twitter fez acontecer, e que fez com que eu me sentisse uma fraude e alterasse, mais tarde, meu username para 16278_263789, por causa de uma música, só que daí começaram a achar que eu fosse um bot, azar, porque os números ficaram até que eu efetivamente deletasse minha conta, o que ocorreu enquanto a logo do site ainda era um pássaro azul.
Sou de virgem, ou em termos mais práticos, sou uma pessoa sistemática, gosto das minhas coisas certinhas, da minha rotina muito bem estabelecida, meu litro de leite dura quatro dias, não importa o que indique a validade, são duzentos e cinquenta ml por dia, quatro dias, um litro.
Pois o leite acabou, não comprei ontem por preguiça, não posso ficar sem leite, tive que recorrer a medidas drásticas, pesei 26g de leite em pó, coloquei água, cabe informar que, apesar de instantâneo, ele deixou vários grumos na caneca, e isso não pode acontecer, uma mísera colher não conseguiria dar conta do recado; aqui deixo a dica, que eu já conhecia, mas ignorei, de colocar pouca água para transformar o pó em pasta, e aí sim completar com água e transformar a pasta em líquido, mas sigamos em frente.
Leite com grumos não tem cabimento, saquei minha arma secreta, guardada no fundo da gaveta de talheres, debaixo de descascador, guardanapo de restaurante, separador de gema e clara – algo que nunca usei e não me vejo usando nos próximos cinco anos, arames de pão de forma, saca-rolhas manual – que no dia em que eu precisar usar vou acabar xingando, pois não tenho força suficiente no bíceps para, de fato, sacar uma rolha, entre outras coisinhas que a gente vai guardando porque vai que precisa, e ali está ele, meu mixer manual, como o leitor já desconfiava ao ler o título desta postagem, escrito em tamanho 72.

Fazendo um rápido exame na estrutura, o mixer parecia saudável e em condições de cumprir com a tarefa para a qual o comprei, mas ao ligar o botão, e nesse momento se espera que algo de ruim aconteça, pois ninguém escreve histórias sobre eletrodomésticos (nome bastante lisonjeiro para um pedaço de plástico de baixa qualidade) que funcionam perfeitamente, e é isso mesmo que está por vir, ao ligar o botão, ele deu uma tremidinha e parou. Apertei de novo, diversas vezes, com mais força, como nosso cérebro de cinquenta mil anos está acostumado quando algo tecnológico não funciona, e nada, porque é claro, a pilha acabou.
Sou de virgem, o que nessa frase significa “eu sei que tenho pilhas AA guardadas”, e volto para o fundo obscuro da gaveta que exibe, rapidamente, dois pares de pilhas, surpreendendo a mim mesma em um par a mais, o virginiano médio poucas vezes se depara com a falta de um item, é bem mais fácil que descubra um estoque, como o virginiano que um dia se viu com sete sacos de arroz fechados; eu precisava tomar uma decisão, pois eu tinha, agora, pilhas de boa procedência e pilhas de lojinha chinesa, mas como não se deve dar pérolas aos porcos, peguei as pilhas de marca B e fui abrir a tampa-de-cor-diferente do meu mixer. Ela revelou:

Não sou especialista em Sonic, sei que ele corre rápido, mas não sei por quanto tempo, mas, a julgar pelas pilhas, não deve ser muito; nesse momento, gostaria de lembrar que um processo que leva, em um dia comum, cerca de um minuto para ser concluído, hoje está levando uns cinco ou mais, mas ainda piora.
Coloco as pilhas no mixer, que começa a tremer descontroladamente na minha mão, mão esta que sequer o segura como devido, já que ele ainda está sem tampinha, quem quer que me veja pela janela da cozinha achará a cena, no mínimo, cômica, e no máximo, tapará os olhos de possíveis crianças, o leite que já estava na molinha do instrumento (vide figura 1) espirra para todos os lados, atingindo microondas, bancada, saleiro, balança e até meu pé, quando eu finalmente consigo desligá-lo, recolocar a tampa horrenda que contrasta com o restante da lataria, posicioná-lo dentro da caneca e, aí sim, ligá-lo na posição correta.
Sou de virgem, detesto saber que há sujeira para limpar e não saber exatamente a extensão do prejuízo, mas essa batalha eu não vou escolher agora. Coloquei, finalmente, o leite para esquentar, e pude tomá-lo em paz, pelo menos até chegar ao finzinho da caneca, onde um grumo de leite em pó gigante, bem no centro, me olhava de volta.
- A essa altura acabo de me lembrar que hoje de fato não é segunda, mas quinta-feira, de modo que me sinto na obrigação de relaxar e não mais temer o futuro, e esperar pela próxima segunda. ↩︎
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