Quando gosto de uma comida, em geral não é um simples gostar, é mais como um hiperfoco, uma obsessão. Então eu a repito quantas vezes for necessário até que comece a surgir, dentro de mim, uma repulsa completa por ela: é o momento de encontrar uma nova refeição favorita.
Encontrei. Ultimamente tenho pedido empanadas de carne picante1, sempre do mesmo lugar, e sempre três unidades, uma a mais do que preciso, que está ali, na área cinza, e da qual não abro mão.
Três unidades contam uma história inteira, com início, meio e fim: as primeiras mordidas são despreocupadas, divertidas. Na verdade, no começo tudo é divertido, o sabor, o perigo, a sensação de que se pode tudo, o que não é verdade, mas, por razões desconhecidas, gostamos de ignorar nosso lado racional.
Lá pelo fim da primeira empanada já é possível perceber que a pimenta é, sim, perigosa, e que não se deve menosprezar o seu poder. Mas, se essa foi ingerida com vontade, às pressas, a próxima será saboreada com mais cautela.
A segunda empanada começa com um alerta, uma picância leve na pontinha da língua que vai aumentando em intensidade. É preciso saboreá-la intercalando-se as mordidas com goles de sua bebida favorita, como tudo na vida, pelo menos em teoria.
Antes de se iniciar a última empanada, uma reflexão: eu nunca precisei disso, eu deveria ter parado na segunda, e, por fim, pro inferno com a área cinza. A esta altura do campeonato, é possível sentir não apenas a língua, mas também os lábios, em chamas. É uma dor boa, mas é preciso que as pausas agora sejam mais frequentes e mais longas.
A terceira empanada é o fim. A dor se mistura ao prazer de saboreá-la, você dá o seu melhor para fingir costume, como se a picância não fosse suficiente para te amedrontar, e mesmo após finalizar a refeição, o ardor continuará presente, pois nem tudo termina quando acaba.

- Aqui cabe enfatizar que picante não é apenas um adjetivo de enfeite – as empanadas de fato possuem bastante pimenta calabresa. ↩︎
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