abuso de boa vontade

Era um dia tranquilo de julho quando recebi uma mensagem no WhatsApp. Eu não tinha o contato salvo, então poderia ser um golpe, ou alguém do trabalho, ou um indiano oferecendo vaga de meio período para ganhar R$ 3000 por dia1.

Quando é assim, eu sempre abro a conversa com medo. Já estou nos meus trinta, não posso viver emoções fortes, é dizer, problemas novos.

A mensagem era simples. Padrão no mundo moderno. Um Danilo da empresa _______ perguntando se poderia “agendar uma breve conversa para entender melhor como foi sua experiência com nossos agentes e descobrir como podemos melhorar nossos serviços para atender melhor às suas necessidades”.

Preciso abrir um parêntese para dar contexto ao leitor. É uma informação sobre mim. Eu avalio produtos. Eu abro e-mails que pedem para que eu conte minha experiência com o laboratório de exames clínicos e eu conto mesmo. Eu dou uma nota para o atendimento. Eu clico na carinha mais feliz do totem. E em geral sou bastante indulgente em minhas avaliações, até porque minhas expectativas costumam ser baixas. O ponto em que eu quero chegar aqui é que eu tenho uma tendência a atender a pedidos razoáveis para ajudar no feedback das empresas.

Daí não deve haver surpresa quando o leitor souber que eu aceitei, sim, conversar brevemente com a empresa _______ para falar da minha experiência. Aceitei, é verdade, mas não sem antes adiantar que se eu não contratei os serviços foi por um motivo completamente alheio à qualidade do atendimento dos agentes. Tudo bem, Danilo disse, vamos te enviar um termo de consentimento para participar da pesquisa.

Um termo de consentimento? Achei tudo muito estranho, não era possível a gente ter tido aquela breve conversa lá, aquele dia, por WhatsApp? Mas não me importei. Afinal de contas, com a LGPD em vigor, essas situações devem ficar cada vez mais comuns. Assinei o termo, que só foi chegar dias depois daquela conversa no meu e-mail2.

Essas coisas não costumam ocupar minha cabeça. São pequenas tarefinhas bem simples, que a gente faz enquanto limpa a caixa de entrada (eu limpo minha caixa) e finge que trabalha. Acabei me esquecendo do ocorrido.

Dias depois de ter assinado o tal termo recebi uma mensagem no WhatsApp. Outro número misterioso. Novas sensações de ansiedade surgiram. Eu nunca falei com essa pessoa antes. Diego. Ele revelou ser colega do Danilo, aquele primeiro agente que me contatou há duas semanas. Queria agendar nossa “breve conversa”. Perguntou qual o melhor horário.

Nisso eu já fiquei com medo do que pudesse ser. Querem me colocar no esquema da Hinode. Jogo do tigrinho. Herbalife. Avestruz Master.

Fico me perguntando quando foi a última vez que eu me meti em um processo tão complicado para dar cinco estrelas para algum estabelecimento. Não consigo me lembrar.

Resolvi então responder com outra pergunta: essa conversa vai acontecer por telefone ou por WhatsApp? Disso depende minha resposta, pois se for o primeiro eu só tenho das 10h às 10h15 da manhã, que é o horário em que estou mais suscetível a falar ao telefone, enquanto por WhatsApp pode ser francamente em qualquer horário, visto que é possível dormir e terminar de falar só no outro dia de manhã. Mas nada me preparava para a resposta do Diego: Microsoft Teams. A plataforma de videoconferências.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele veio com o golpe final: posso agendar para quarta-feira às 11h? Fiquei momentaneamente sem resposta. Depois disse que sim. E me arrependi instantaneamente. Quarta, às 11h, eu tenho muitas coisas para fazer. Tenho que cozinhar. Ou buscar encomendas. Ou fazer faxina em casa. Ou lavar o cabelo. Ou me adiantar para as tarefas da tarde. Não tenho tempo quarta, às 11h, para entrar no Teams – pelo notebook ou pelo celular – para simplesmente dizer a estranhos que não contratei o serviço deles e que não foi por culpa deles.

A cavalo dado não se olha os dentes. Se o processo de avaliação dos serviços de uma empresa é assim tão complicado, isso não vai se sustentar a longo prazo. Favores chatos precisam ser fáceis de fazer. É difícil achar pessoas que queiram abrir mão de seu tempo para dar três cliques em um e-mail, que dirá assinar termos e agendar reuniões em aplicativos de fluidez discutível.

Tomei, então, uma decisão importante. Isso não poderia ficar assim. Onde já se viu, parar uma rotina, num horário super importante, para ficar dando feedbackzinho de um serviço que eu sequer utilizei, só pra ser gentil e ajudar os funcionários da empresa _______ a baterem suas metas? Fui firme e séria na minha resposta e não olhei para trás: por favor, remarque para quinta.

  1. Não é golpe. ↩︎
  2. Não quero dizer “ao meu e-mail” porque, francamente, lugar virtual me deixa confusa e já foi amplamente aceita no Brasil a forma “no” para se referir a coisas que se manda por e-mail. ↩︎

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