Cheguei apressada ao ponto de ônibus, naquele estado de quase-correndo-mas-mantendo-a-pose, porque sabia que cada segundo importava: planejei sair da minha sala com nove minutos de folga, mas fui parada por uma colega que precisava de alguns equipamentos. Resolvida a questão, desci as escadas com a confiança de que ainda daria tempo e já me encaminhava para a saída quando fui novamente interrompida, agora por algumas pessoas pedindo informação, o que me tomou mais cerca de dois minutos; assim que deixei o prédio, verifiquei o aplicativo: faltavam apenas três minutos para o ônibus passar, e era o meia três três oito, ele nunca atrasa, pelo contrário, corre até o risco de adiantar, e então foi isso, cheguei apressada ao ponto de ônibus, naquele estado de quase-correndo, esbaforida, usando máscara, porque estava gripada, e na iminência de ter meu segundo acesso de tosse do dia.
Conforme previsto, o ônibus chegou quase junto comigo. Várias pessoas entraram, o que em geral é mau sinal, pois significa que o último passou há muito tempo e que esse, portanto, ficará lotado, e um homem, um senhor de uns cinquenta e poucos anos, me ofereceu passagem, tendo sido eu a penúltima a entrar, e ele, o último.
Enquanto minha respiração voltava ao normal, tomei meu assento de costume e abri minha bolsa para ter à mão os itens indispensáveis em caso de uma crise de tosse: uma garrafinha d’água, um lenço, embora, como já disse, eu estivesse de máscara, e algumas pastilhas para a garganta. Foi importante fazer esse movimento, porque minha bolsa é como a bolsa do Gato Félix, enorme e cabe tudo dentro, e precisa-se de tempo e de paciência para se encontrar os objetos lá.
O leitor pode se perguntar por que é que eu carregava todos esses itens comigo, ao que respondo com franqueza: tenho crises de tosse desde que me entendo por gente, religiosamente, todas as vezes em que fico gripada. É uma questão fisiológica, sim, mas principalmente psicológica. Basta que eu entre em ambientes aglomerados ou silenciosos que a tosse me anuncia em alto e bom som. Falo de tossir interminavelmente, com espasmos cada vez piores, chegando ao ponto de quase vomitar, e é um quase, quase, mesmo. Como a cena pode assustar os que estiverem por perto, sempre que começo a ficar resfriada já providencio o kit.
Outra coisa que ajuda é ter mais alguém tossindo no mesmo local. E nesse dia tive a sorte de ter uma pessoa resfriada um pouco atrás de mim. Minha primeira reação foi de alívio, que ótimo, não estou sozinha, e ao detectar o padrão de tosse senti também uma pontinha de inveja: essa pessoa tem controle sobre seus impulsos, consegue tossir duas, três vezes, e parar. Quem dera eu conseguisse ser assim.
Depois de uns minutos, porém, comecei a perceber duas coisas: uma, que o meia três três oito estava se enchendo rapidamente, e logo alguém se sentaria comigo; a outra, que quem estava atrás de mim continuava tendo seus acessos de tosse, claramente constrangido, como qualquer um fica, desde 2020, quando tem uma doença respiratória. Olhei de canto de olho e percebi que quem tossia era o homem que tinha me dado passagem ao entrar no ônibus. A junção desses dois, agora três, fatores me fez ter uma ideia: vou me sentar ao lado desse senhor. O ônibus está ficando lotado, e é melhor que eu, que já estou gripada, sente-me ao seu lado, e fique mais à vontade para tossir, do que ter alguém saudável se sentando ao meu lado e despertando a chance de que uma crise se inicie. Vou inclusive oferecer a ele uma das minhas pastilhas para a garganta.
Mas eu sou uma pessoa tímida. Então pensei: no próximo ponto eu vou colocar meu plano em ação. Já no ponto seguinte, uma mulher entrou e passou pela catraca. Eu tinha tudo certo na minha cabeça: assim que ela passasse por mim, se ela não se sentasse ao meu lado, eu iria me sentar ao lado daquele senhor, oferecer-lhe uma pastilha, e ainda ficar perto do corredor, em uma posição estratégica para descer do ônibus. Eu sabia como ele estava se…
A mulher passou por mim. E não se sentou ao meu lado. Não se sentou ao meu lado porque se sentou ao lado dele. E ele, que finalmente tinha se acalmado, voltou a tossir.
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