Certa vez, há muitos e muitos anos, tive uma colega de trabalho que adorava cozinhar. Pensando bem, não sei se adorava mesmo ou se odiava. Juliana, o nome dela. Tudo o que direi na sequência é, no mínimo, negativo, e ainda será pouco.
A bem da verdade, ninguém trabalha em um call center com o intuito de fazer amizades, mas quando se passa a maior parte do tempo em um ambiente fechado, com as mesmas pessoas de sempre, isso acaba acontecendo. Só que a Juliana não era minha amiga. Quando se passa a maior parte do tempo em um ambiente fechado, com as mesmas pessoas de sempre, também se faz inimigos.
Juliana se gabava, entre muitas outras coisas (mas isso é assunto para outro dia), de suas habilidades culinárias. Até certo ponto, é admirável dizer aos outros que você é bom em alguma coisa, sem falsa modéstia, mas como eu acabei de dizer, isso até certo ponto, pois de nada adianta encher a boca para falar da sua comida quando ela é ruim.
A comida da Juliana era ruim.
Ruinzona, mesmo.
Ou talvez eu não fosse o público alvo.
De verdade, a comida era péssima.
Acho que a primeira coisa que ela me ofereceu, pouco tempo depois que eu entrei na empresa, foi um risoto de alho poró. Quando aprendemos a cozinhar e pegamos gosto pela coisa, invariavelmente o risoto passa a ser uma receita fundamental no nosso portfólio de pratos ditos refinados. Se você fala que domina as panelas mas não sabe fazer um risoto, há quem diga que você não merece o título de cozinheiro.
Naquele dia quente e ensolarado, Juliana fez risoto para várias pessoas. Tantas que ela teve que usar uma panela de pressão. As meninas do trabalho se impressionavam ao vê-la preparar o prato. Eu, de minha parte, achei esquisito, achei mesmo, não minto, porque não se usa panela de pressão para se fazer risoto, pelo menos não que eu saiba, o leitor discorde de mim se quiser, mantenho minha posição.
Enquanto na cozinha umas trinta regras culinárias eram friamente pisoteadas e sete demônios eram evocados de dentro das profundezas do inferno com um risoto sendo feito na pressão, na sala abríamos as janelas para trazer um pouco de ventilação para a casa. Na hora eu não sabia, mas precisaria de ar fresco em pouquíssimo tempo.
Não sei exatamente o porquê, talvez por ser a primeira vez, mas eu ainda tinha esperança de que a comida da Juliana pudesse ser boa. Na primeira garfada do risoto, no entanto, percebi que era uma gororoba sofrível. O vinho branco jamais evaporou, ou reduziu, seja como for, e lembrava um arroz empapado de vinho (porque era basicamente isso, mesmo). Fortíssimo, pesado, intragável. Parecia um pesadelo e é verdade que eu tenho pesadelos com isso até os dias de hoje.
Alguém poderia dizer que a linguagem do amor de Juliana era prestar atos de serviço, mas o leitor não se engane, porque não é bem por aí. Juliana gostava mesmo era de se exibir. Era dissimulada e ardilosa. E, depois do risoto, ela se tornou minha inimiga pessoal.
Passadas algumas semanas, ou meses, do terrível episódio, ela levou algum prato misterioso para as colegas comerem. Um tipo de coalhada, algo assim, e estava fora da geladeira havia já algum tempo, o aspecto um pouco mais esquisito do que o de uma coalhada normal. Recusei cordialmente, dando alguma desculpa básica, do tipo estou de dieta ou acabei de almoçar. Por óbvio que ainda não havia me recuperado do trauma do risoto. Na ocasião, até que foi fácil me desvencilhar da armadilha, mas o próximo ataque me pegou com a guarda baixa.
Um belo dia, que depois daquele momento deixou de ser, Juliana me deu uma marmita de galinhada. Do nada, assim. Galinhada é quando você refoga um franguinho na panela, depois joga arroz e cozinha junto. É um prato goiano, delicioso e muito bem temperado.
Fato é que Juliana sequer era goiana, mas como gostava bastante de se exibir, repiso, ela resolveu mostrar seus dons culinários novamente e, quando vi, o pote estava nas minhas mãos. Era sexta-feira, ou véspera de feriado, uma data do tipo. Levei o negócio para casa. Comi um pouquinho, já quase chorando, e odiei, como de costume, mas na época tive dó de jogar fora e acabei comendo mais um pouco como forma de punição por ter deixado as coisas chegarem naquele ponto.
Acontece que eu não costumava lidar bem recebendo coisas sem dar algo em troca. E o pote de plástico da Juliana ainda estava comigo. Por isso, depois desse golpe envolvendo apropriação culinária, resolvi fazer uns biscoitinhos de aveia em retribuição à minha – no melhor dos cenários – colega.
E eu era boa nos biscoitinhos. Muito boa. Quando você faz alguma coisa dezenas de vezes, você fica bom nela. De novo, eu era boa. A receita em si era boa. E os biscoitinhos não tinham erro.
Só que eu errei.
Devo ter me sabotado.
Porque eles ficaram horríveis.
Horríveis não, ficaram intragáveis.
Eu não daria nem pro meu cachorro.
Nem pro meu melhor inimigo.
Pro pior, sim.
Então levei os biscoitos pra ela.
Parte de mim pensava que a Juliana me acharia uma péssima cozinheira. Não posso fazer isso, ela vai se sentir superior a mim, vai rir da minha receita, vai contar pros outros etc etc. A outra parte, a parte que me convenceu, pensava que isso era o mínimo que ela merecia depois de tudo o que ela fez comigo e com as outras dezenas de vítimas que tiveram que comer suas receitas ruins ou péssimas.
Eu sorri de modo desafiador enquanto entregava a colheita maldita. Ela pegou e fez o mesmo.
E comeu na minha frente. Digo, uma unidade.
Desse dia em diante nunca mais ganhei comida dela e também não dei. Fiz questão de colocar os biscoitos no pote da galinhada para que ela não sentisse a necessidade de me devolver outra vasilha com alguma coisa deprimente dentro. E desde então, sempre que nos cruzávamos em um corredor, uma sala, ou no refeitório, sorríamos amargamente, falsas, lembrando da nossa terrível troca de socos culinária.
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