o batalha

Perto da divisa entre os estados de Goiás e Minas Gerais, já do lado mineiro, existe uma cidadezinha chamada Paracatu. Eu não saberia descrevê-la ao leitor, porque não me lembro de ter estado lá. Estive, no entanto, muitas vezes em sua zona rural, numa fazenda chamada Batalha.

O Batalha é aquela fazenda que costumamos chamar de roça. Não é parecido com uma chácara, isso não, é roça mesmo, com lavoura e tudo. Se o leitor me perguntar qual é a diferença entre uma chácara e uma roça, vou supor que ele viveu a vida toda na cidade e vou responder, assim de cabeça, que a chácara é um lugar que tem grama e tem piscina, e a roça é um lugar que não tem grama e não tem piscina. Chácara é verde, roça é marrom. Na chácara, o churrasco acontece de dia, e na roça o churrasco acontece de noite, quando os peões voltam da lavoura ou da caça, depois de abaterem uma paca, para absoluto horror dos fiscais do Ibama.

Quando criança, de uns seis até uns doze anos, eu costumava passar alguns dias no Batalha na época de férias. Eu não gostava muito. Meu pai, meu tio e meu avô trabalhavam na roça, minha avó cuidava da casa, e minha irmã e eu vivíamos o mais completo tédio que uma propriedade rural pode oferecer. É sobre isso que quero falar.

O Batalha, e peço a compreensão do leitor por não dar uma explicação sobre o porquê do artigo masculino, uma vez que eu mesma desconheço, é um lugar simples, rústico. Para fins de ilustração, deve-se imaginar um terreno remoto, com pelo menos uma hora de estrada de terra antes de se chegar a uma rodovia asfaltada, que dirá da cidade, das luzes, do comércio. É precisamente por isso que lá existe uma enorme despensa anexa à cozinha, cujo fogão à lenha ocupa metade do espaço. Além disso, não há sinal de celular1. Temos apenas quatro operadoras no Brasil, pouco demais para o Batalha. Não há postes de distribuição de energia elétrica, de forma que o fornecimento se dá por geradores a diesel, desligados todas as noites às 22h. Por fim, acho importante dizer que durante o mês de julho as noites no Batalha são insuportavelmente geladas, não importa quantos cobertores se use, pois cada quarto tem ao menos trinta metros quadrados – alguns possuem duas portas -, o chão é vermelho, o pé direito é altíssimo e não tem forro.

Com os pontos acima esclarecidos, peço que o leitor faça o exercício de se imaginar vivendo dessa maneira. Não precisa ser por muito tempo, umas duas semanas já está bom.

Nessa época, os dias no Batalha tinham cerca de trinta horas. Acordávamos cedo, por causa da claridade, do frio e do cantar do galo – por clichê que possa parecer -, e bebíamos leite da vaca, do tipo que vem com nata e tudo. Minha irmã e eu éramos crianças da cidade, e toda vez tínhamos que nos reacostumar com a vida na fazenda. Sem telefone, sem outras tecnologias e sem ter para onde ir, nos refugiávamos na companhia uma da outra e procurávamos nos divertir na roça2.

Lista de coisas divertidas para se fazer no Batalha

  • Fabricar bambolês com mangueiras de irrigação;
  • Jogar lavagem aos porcos (não pérolas, apenas lavagem, eles preferem assim);
  • Andar só um pouquinho além dos limites da fazenda;
  • Adotar um camundongo que caiu no balde de noite e não conseguiu mais sair;
  • Comer hortelã da hortinha;
  • Puxar os cachinhos que crescem no maracujazeiro;
  • Fingir que se vive no universo dos Flinstones;
  • Limpar as entranhas de lambaris para fritá-los, e estourar suas bexiguinhas;
  • Lavar os chinelos no tanque ao final do dia, antes de tomar banho;
  • Caminhar dois quilômetros até a cachoeirinha.

A cachoeirinha era nossa principal diversão no Batalha. Como o nome sugere, é uma espécie de cachoeira. O acesso a ela é um pouco difícil e a vigilância deve ser constante, pois não estamos falando de uma piscina com azulejos azuis e borda antiderrapante. As pedras desiguais e cheias de limo compõem a beleza do local, mas também são perigosas. Muitas vezes nós só colocávamos o pé na água gelada, apoiando-nos em terra firme. Do outro lado da cachoeirinha há um regato onde é possível ver inúmeros girinos, pretinhos, pretinhos, que eu achava o máximo coletar com o auxílio de um copo plástico, não muito ecológico, já achado ali, e que ali ficava quando íamos embora.

Quando as atividades ao ar livre acabavam, era hora de fuçar os livros da estante ou os que ficavam guardados em caixas de papelão. Lembro-me de ter lido Chic, da Gloria Kalil quando tinha oito anos, além de diversos romances da minha avó que sempre continham algumas passagens picantes.

Hoje sinto falta do Batalha. Não sei se exatamente dele ou do tempo que eu tinha para pensar, longe de comunicações e perto de tanta coisa diferente que não era possível ver e aprender no meio do barulho da cidade. Escrevo porque leio, e leio porque o Batalha tinha muitos livros e muito tempo à minha disposição.

  1. Ou, pelo menos, não havia até, tipo, 2006. ↩︎
  2. É terrível ter que admitir que a letra ç fica próxima à letra l no teclado, de forma que tive que corrigir a palavra “roça” diversas vezes. ↩︎

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