Na reta final do mestrado, e é possível notar que estou nessa pois não publico nada há semanas, todo feriado é bem-vindo para avançar na dissertação, e esses eram os meus planos para Finados 2023®, caso tudo desse certo, o que já se sabe que não, só de olhar o título dessa postagem.
Sexta-feira, 03 de novembro de 2023
Depois de uma quinta-de-feriado muito tranquila, o artigo chegando nos finalmentes, um lazer de leve (ficar afundada na cama enquanto olhava qualquer coisa na internet), a sexta era promissora. Consegui fazer umas pesquisas, almoçar, e estava praticando meu novo hobby (detalhes em postagem futura) quando, de repente, e aparentemente do nada, e ainda, pouco tempo após estender minhas roupas no varal, as quais eu lavo com Pinho Sol, o tempo fechou. Imediatamente, uma ventania que eu jamais havia presenciado, e que depois soube que passou de 100km/h, junto com uma chuvarada forte, fez as luzes de casa começarem a piscar. Tirei quase tudo da tomada, mas a situação parecia grave, então tirei até a geladeira e o modem de internet. A janela chacoalhava e o meu medo era que o varal tivesse tombado e que minhas roupas estivessem encharcadas e cheias de folhas, o que seria, francamente, o menor dos meus problemas começando naquela sexta-de-feriado.

Foi tudo muito rápido, coisa de cinco, dez minutos. A ventania passou e a chuva logo se transformou num chuvisqueiro, aproveitei para descer e acudir minha roupa, o varal estava intacto, fiquei aliviada, pois não sabia o que viria na sequência. Normal ficar um período sem energia quando chove forte assim, mas depois de mais de uma hora sem sinal de volta, minha vizinha veio papear, assim como faziam os australopithecus.

O sol se pôs, começou a escurecer, e com a noite vieram as primeiras notícias de que a coisa estava feia, vários bairros estavam sem energia, e o interior também sofrera com a ventania. A vizinha e eu decidimos dar um passeio, fazer o reconhecimento da área, buscar alimento, essas coisas que se faz durante um apocalipse. Fui dormir com 20% de bateria, 4G sofrível, 3 comprimidos de melatonina e um desânimo sem tamanho por não poder passar o feriado da minha maneira favorita: no conforto da minha cama, com os luxos da modernidade ao meu dispor.

Sábado, 04 de novembro de 2023
Eu tinha um plano: a energia não demoraria a voltar, pois já é absurdo o suficiente passar doze horas sem luz, então lá pela hora do almoço estaria tudo bem (e aí meu pensamento falhou ao não determinar uma margem de segurança1 para a situação), então eu aproveitaria a manhã para ler, no ônibus, conhecendo a paisagem de toda a minha linha, e carregando o celular.

O passeio corria agradável, o carregamento do celular, não. Como peguei o ônibus na direção para a qual nunca vou, de repente me vi sozinha, com a cobradora me olhando e declarando, para meu desespero: aqui é o ponto final, onde você vai descer?, virei uma criança de seis anos e disse que só queria voltar para casa, tudo bem, disse ela, espere cerca de trinta minutos, é o tempo de almoço do motorista, esperei. De volta ao ônibus, resolvi fotografar as árvores caídas que via pelo caminho, e foram muitas.

O ônibus teve que fazer ao menos um desvio por conta de queda de árvores, fui me dando conta do tamanho do estrago, diversos carros da Enel estavam nas ruas, nós de Goiás dizemos Ênel, paulistanos dizem Enél, o trânsito não andava, meu telefone carregava na mesma velocidade. O dia estava ensolarado, e o céu azul, lindo, lindo, não ornava com o estrago feito no dia anterior.

O que mudou no cenário urbano, de modo geral, além das árvores caídas, foi a presença dos cracudos-de-tomadas, chegando ao metrô vi dezenas de pessoas sem brilho nos olhos, sentadas com algo semelhante a um acesso no braço2, olhando melhor dava para ver que eram celulares pegando um pouco de carga, o medo era me tornar um deles em poucas horas, e aconteceu. Aconteceu, porque se eu esperava o restabelecimento da energia elétrica lá pelas duas da tarde, já eram 16h de novo, totalizando 24h sem luz, banho gelado na conta, o infortúnio de por pé fora de casa num sábado, e o humor geral era:

Durante o dia, é fácil se esquecer da falta de luz. Desci no shopping, peguei umas comidinhas, passei na feira, comprei pastel, comi, arrumei a casa e terminei meu projetinho de lazer. O mestrado ficaria para amanhã, porque preciso de energia e internet para trabalhar. Recolhi as roupas do varal, impecáveis, parece que nem tinham visto chuva ou vento. Eu estava tranquila, tinha bateria, pelas minhas contas, até às 20h. Assim que a noite ia caindo, porém, minha tranquilidade deu lugar a um desespero puramente instintivo, senti a melancolia invadindo meu ser, apenas porque estava ficando escuro.

A vizinha bateu ponto aqui em casa de novo, papeamos até escurecer e marcamos de ir ao shopping carregar o celular. Como esperado, os cracudos estavam lá, e agora éramos duas a mais; os espaços de coworking estavam cheios, encontramos uma mísera tomada, minha vizinha levou um T, ou benjamin, como preferir, e colocamos nossos dispositivos para ganharem uma sobrevida. Esse deve ter sido o ponto alto do nosso feriado, porque duas senhoras, sentadas no tapete, de frente para a gente, e sem dignidade alguma, como todos de nós ali, começaram a discutir, em meio ao caos da falta de energia, sobre política brasileira.

Não tenho foto para ilustrar, naturalmente, pois meu telefone estava carregando, de modo que o leitor terá que acreditar em minha palavra, quando digo que uma das senhoras supitou de raiva a ponto de arrancar seu aparelho da tomada e ir embora com o risco de ficar sem bateria.
Passamos em um supermercado para comprar um dos itens mais queridinhos desse feriado, e não por causa dos finados em si: velas. As velas padrão tinham acabado, de modo que minha vizinha escolheu uma de sete dias3 de algum santo famoso, e eu peguei outra com a imagem de Jesus, símbolo mais tradicional. Já em casa, acendi a vela e botei Jesus olhando a situação. Os jornais diziam que a energia só seria completamente restabelecida na terça-feira, e isso não tinha condição.

Tomei mais alguns comprimidos de melatonina, dormi com facilidade, apesar da dor de cabeça, e acordei, às 4h47, com a luz acendendo. Pensei nos trabalhadores da Enel, me senti agradecida, liguei a geladeira, apaguei a luz e voltei a dormir, aliviada. Passei a olhar a energia elétrica com muito mais carinho e respeito.
- Margem de segurança: sempre prever algo um pouco pior do que o normal para a ocasião, tornando sua mente pronta para o pior. Conceito que aprendi com James Clear em sua newsletter de quinta-feira. ↩︎
- Ouvi relatos de que pessoas estariam levando filtros de linha para que vários cracudos pudessem carregar seus celulares ao mesmo tempo, no metrô. ↩︎
- Recebi a informação de que não se pode acender velas de sete dias sem motivo, peço perdão se ofendi alguém, mas o motivo eu tinha. ↩︎
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