A sra. Limpa pega o ônibus às 07h30 da manhã, vestindo roupas brancas, símbolo internacional da coragem e da ousadia, e sapatos confortáveis, pois não se pode brincar duas vezes com a sorte, e ela já apostou todas as suas fichas em se manter, bem, Limpa. Seus cabelos são grisalhos, bem cuidados e presos em um perfeito rabo de cavalo com um elástico que possui enfeite de pérola, combinando com os brincos. Não se vê um único fio desalinhado.
Ela possui a pele bronzeada do sol do dia-a-dia e as unhas bem curtinhas, imaculadamente limpas, sem esmalte. Tem, à sua frente, uma grande mochila preta que contrasta com sua roupa clean, mas é necessária para carregar todos os pertences de que vai precisar em mais um dia de trabalho. Inclusive seu celular, que está no bolso lateral da mochila e com a tela ligada. A sra. Limpa parece ignorar o consumo de bateria. Ela usa seu fone de ouvido, de forma sensata, ao contrário de outra mulher, que descera há pouco, livrando assim os passageiros de ouvirem mais uma música do seu setlist; a sra. Limpa está sentada de forma digna e tranquila no banco do ônibus, em sua vaga preferencial. Ela pode estar ouvindo música sertaneja ou gospel, ou mesmo as notícias no jornal.
A tela do celular permanece acesa por longos minutos, e só se apaga um ponto antes da sra. Limpa descer. Ela não nota. Não precisa utilizar o telefone enquanto está no ônibus por outro motivo a não ser ouvir música (ou as notícias). A vida já é exaustiva o suficiente em um mundo em que se é obrigado a ter uma conta no WhatsApp e a participar de inúmeros grupos, muitos com as mesmas pessoas, e que servem, principalmente, para abarrotar a memória do celular com fotos e vídeos de eventos, bebês, notícias falsas e receitas fit ou terrivelmente gordurosas, sem meio termo.
A sra. Limpa aproveita seus minutos no ônibus para se distanciar de tudo isso. Suas mãos permanecem cruzadas sobre a mochila e ela emana a paz que apenas uma pessoa que está com a vida toda em dia poderia sentir. Ela não tem pendências.
Quando o ônibus vira a última esquina antes do seu ponto, a sra. Limpa rapidamente alcança o bolso lateral e, em vez de pegar o telefone, retira um pequeno maço de cigarros de palha que estivera escondido atrás dele durante toda a viagem. Separa, habilmente, um dos cigarros, e se prepara para descer e apreciar seu pequeno prazer, antes de bater ponto e iniciar sua sexta-feira, agora um pouco menos limpa.

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