caderninho

Tenho um caderninho branco que comprei no começo de 2022 para anotar minhas coisinhas. Acabou que as coisinhas se tornaram, invariavelmente, sessões de terapia e reuniões de mestrado, que estão intercaladas, quase que em uma ordem perfeita, nas folhas pautadas.

pergunta que permanece sem resposta

Dizer que a terapia levou ao mestrado não faz sentido, mas considerar que o mestrado pode ter sido uma das causas para a terapia é bem mais lógico e, em parte, verdadeiro. Não é possível passar pelo mestrado sem sofrer seus efeitos colaterais, que no meu caso foram os mais conhecidos, ansiedade, procrastinação, síndrome do impostor, vontade de desistir, vontade de xingar, vontade de espernear, o que de quando em quando me levava a falar com um profissional antes que o caldo entornasse.1

No meio das minhas anotações – tanto do mestrado como da terapia – é possível encontrar, de vez em quando, alguns pontos de interrogação. Eles são bons indicadores de humor: quanto mais bem desenhados e pequenos, mais estabilidade emocional eu tinha no momento. Se me deparo com pontos de interrogação, no plural, grandes, rabiscados tão rápido que quase parecem pontos de exclamação, eu sei que estava, no mínimo, entrando em desespero.

e me graduei em engenharia

Por essas e outras, eu aconselho todo mundo a ter um caderninho. Ele terá serventias diferentes de acordo com a rotina e a fase da vida de cada um; ainda que vivamos na era digital, ainda que tenhamos ferramentas como o Notion e o Google Agenda para organizar e nos lembrar de tudo, ainda assim há coisas que só a caneta no papel pode fazer. O processo criativo flui melhor; depois, tudo pode ser passado para suas respectivas pastas e documentos eletrônicos, mas escrever no papel traz maior sensação de liberdade, inspiração, controle.2

citar minhas fontes? que tal meu cérebro top; via

Agora, em 2024, arrumei um caderninho novo. Ele não tem pauta, é tipo um moleskine, a capa é feita de papel kraft e tem meu nome colado. E um caderno novo é como uma amizade nova, no começo nunca se sabe o que dizer, mas depois de um tempo tudo fica natural, é preciso insistir um pouco.

Comecei escrevendo trivialidades, coisas que descobri no primeiro dia do ano, ou seja, que tômbolo é uma estreita faixa de terra que liga uma ilha ao continente, e que tômbola é o nome de um jogo basicamente igual ao bingo, e que Manu Chao tem uma música, dedicada a Diego Maradona, chamada “La Vida Tómbola”, sobre a vida ser uma loteria. Um momento depois e eu já estava colocando minhas verdadeiras intenções no papel, os tômbolos e as tômbolas sendo apenas um aquecimento, agora meu novo caderno e eu já somos amigos. Íntimos.

  1. Embora eu esteja falando do mestrado no passado, é importante ressaltar – para mim mesma – que eu ainda não o terminei. ↩︎
  2. O processo de escrita dos posts deste blog é inteiramente digital, o que, por um lado, é prático, e, por outro, corre o risco de resultar em textos meio rasos; para driblar o problema, às vezes anoto ideias no papel – e aí sim as desenvolvo com os dedos no teclado. ↩︎

Uma resposta a “caderninho”

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    Woodro

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