Depois de mais de uma década de vida simples e longe de preocupações, estou me familiarizando novamente com os conceitos do Cálculo. Uma função de primeiro grau, por exemplo, também chamada de função linear, pode ser escrita na forma de y = ax + b, e como neste espaço sou escritora, não engenheira, usarei minhas próprias palavras para falar de algumas aplicações práticas dessa função.
Quando falamos em custo fixo e variável em sua forma mais simplificada, a função linear é bastante didática para explicar essa dinâmica. Basicamente, o custo fixo é b, o custo variável é ax, isso em matemática; em português, o custo fixo é “aproveita que você vai [ação com objetivo definido]” e o custo variável é “e faz [ação de trazer bem ou serviço] pra mim”.
Pensei nisso enquanto lavava a louça: em como termos matemáticos possuem (e devem possuir) significados na gramática, como quando brincávamos, na faculdade, de dizer que “o limite do nosso ônibus, tendendo ao seu destino final, era a cidade no meio do caminho”, onde ele costumava quebrar. A matemática precisa ser compreendida em português. E em números também.
Por que o custo fixo é importante?
Eu estou usando um aplicativo/site chamado Habitica, que nada mais é que uma ótima ferramenta que você pode utilizar para gamificar sua vida. Lá eu tenho a seguinte tarefa, que preciso cumprir diariamente:

Para não perder no meu próprio jogo, preciso lavar a louça – até o fim. Não só o copo que vou usar agora, não só um garfo, não só um prato de sobremesa – que só foi tirado do armário porque todos os outros pratos da casa já foram usados. Nesse caso, o custo fixo pode ser descrito em ações que gastam certo tempo e despertam certas sensações desconfortáveis: tirar o relógio, ficar de frente para a pia, sentir a água gelada nas mãos, colocar detergente na esponja, olhar o cenário horrível à minha frente. O custo variável é o tempo gasto com cada item que será lavado, por óbvio uma colher de sobremesa leva menos tempo que uma frigideira, mas vamos usar uma média para simplificar.

Mesmo não lavando nada eu já terei gasto, digamos, cinco minutos inteiros na minha preparação para lavar a louça, fazer o quê, é o custo fixo, e já que estou aqui mesmo, de mãos molhadas, de esponja pronta, por que não lavar mais essa caneca para amanhã cedo? e a colher também, esse pote que tá fácil aqui, agora só sobrou um prato, e voilà, a louça foi toda lavada. Quando o custo fixo de alguma coisa é alto, é interessante diluí-lo, assim não se tem a sensação de estar desperdiçando tempo e recursos. Ao olhar para, digamos, metade da louça, e decidir por não lavá-la agora, a consequência óbvia é que mais tarde será necessário despender um novo custo fixo para lidar com o restante da tarefa. Se o cérebro funcionar bem, ele vai querer zerar logo toda a louça.
Um outro exemplo da vida real é a concentração necessária para realizar atividades intelectuais. Quanto mais modernos somos, menos concentração temos, e há um custo fixo para entrarmos no flow necessário para pensar, ler ou escrever algo. Quando uma notificação no celular interrompe esse flow, considerando que voltaremos à atividade inicial, novamente precisamos gastar tempo e energia mental para continuarmos produzindo.

“Seja implacável com o que você ignora. Tempo, energia e recursos são muito preciosos. Você tem que ser feroz em cortar suas prioridades – mais do que você imagina e certamente mais do que é confortável.”
James Clear

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