Tudo começou quando eu notei, enquanto lavava o banheiro, que a água do box estava escoando muito lentamente. De quando em quando, lembrei, é bom fazer uma limpeza no ralo.
Então lá fui eu, na maior inocência, supondo que pegar um picote de papel toalha e puxar uns cabelos do ralo seria o suficiente para resolver o problema; ledo engano, pois um chumaço teimou em permanecer do lado de dentro, me obrigando, consequentemente, a fazer aquilo que, lá no fundo, eu já sabia que teria que fazer.
Peguei meu ferramental-que-um-dia-foi-da-cozinha-mas-agora-é-para-fazer-faxina, esse varia de casa para casa, em geral é uma faca, um garfo, no meu caso é um cortador de queijo, ele já fica guardadinho dentro de um pote de sorvete com seus amigos, uma esponja velha e uma escova de dentes para alcançar os cantinhos, e destaquei, com facilidade, a tampa do ralo, revelando toda a parte mais obscura do meu ser, o triplo de cabelo inicialmente previsto, envolto por uma sujeira misteriosa, invisível no dia a dia, mas que vai tomando conta do self.
Enquanto eu claramente entrava em uma espécie de hiperfoco no ralo do chuveiro, invocando agora a pobre escova de dentes, e percebia que mais e mais sujeira saía dos lugares escondidos daquele ralo, percebi que estava, na verdade, contemplando minha psique e como ela precisava de nutrição, de produção criativa, de alimento real; as distrações da modernidade vão entupindo o ralo de cada um, não se nota a princípio, mas aos poucos se busca mais dopamina fácil, é a fofoca, é rolar infinitamente pelas redes sociais, é se expor desnecessariamente a estranhos: são coisas que vão minando nossa energia vital e nossa disposição para o criar, que represam nossa água e que causam o desmoronamento dos dominós do cérebro, ou seja, iniciam um processo que eu chamo de espiral do fracasso, puxam outros maus hábitos e entram em novas áreas da vida que antes funcionavam bem.
Limpei a sujeira incrustada naquele ralo. Entendi como cada parte funcionava. Desmontei seu mecanismo por completo. Descobri muito mais sujeira e a removi completamente. Eu poderia devolvê-lo à Tigre e achariam que tinha acabado de sair do estoque. Um peso havia sido tirado da minha psique. A água voltou a escoar.

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