a casa

– Vai fazer o quê hoje?

– Sei lá. Acho que vou lá fora, ver como tá o tempo, ver se o Márcio aparece.

Luana falava com Fred, sentado no chão, as pernas junto ao corpo, escorado na parede cinza, daquele corredor cinza, daquela casa cinza: tudo lá tinha essa cor, um acinzentado escuro, que lembrava os gráficos de computador nos anos 90, isso, era isso mesmo, o descanso de tela de labirinto do Windows. Fred não tinha nada nas mãos: não chegou com nada.

Além da casa, tudo o que restava era “lá fora”, e o tempo era sempre o mesmo: ensolarado, como naqueles dias ruins de se sair de casa a pé; nenhuma árvore, o chão de terra batida, perdendo a cor. Para acessar “lá fora” não era necessário passar por uma porta: a casa acabava como um labirinto, mesmo, duas paredes paralelas e pronto, por isso havia sempre um punhado de poeira perto da entrada.

Luana foi fazer seu próprio passeio diário, que consistia em andar de quarto em quarto, entrando nos que eram lojas, ou de pessoas amigas, e evitando aqueles que dariam dor de cabeça. Ela estava lá há cerca de dois meses e ainda não havia aprendido tudo, mas já sabia que não valia a pena escutar as teorias de certos coitados. Logo na primeira semana, uma velha lhe perguntou:

– Quando você foi abduzida?

– Eu? Eu cheguei esses dias, mas tô esperando pra voltar, já devem estar me procurando…

Foi interrompida por uma gargalhada desdenhosa, a velha parecia satisfeita com sua o que ela disse, e pode-se dizer com certeza que era a única que estava se divertindo naquele momento dentro da casa. Luana reparou que as roupas da velha estavam sujas e gastas, como se nunca tivesse usado outra coisa. Teve um calafrio.

– Se eu te contar há quanto tempo espero ser encontrada… – desafiou.

Ela não quis saber. Virou as costas e não voltou mais àquele quarto.

E era assim que eles se referiam ao acontecimento: abdução. No caso de Luana, ela fechava uma grande mala, cheia de roupas, pronta para viajar, quando, num instante, sentiu o ambiente pesado, cinzento, da casa. De repente, estava no quarto de Valéria, a primeira pessoa que viu ali, e ela estava chorando, mas levou um susto com a sua chegada e parou.

– Mais uma…

Luana estava muda. O que era aquilo? Quem era ela? Onde está minha casa e mais uma o quê? Ela fechou os olhos, nauseada, tentando se lembrar se tinha tomado algum remédio diferente naquele dia, mas já começava a se esquecer do mundo real. Era um dos efeitos de se entrar em um universo paralelo.

Quando acordou, viu-se novamente no quarto cinza, a mala aberta. Valéria entrou usando uma peça que reconheceu como sendo dela.

– Podemos dividir nossas coisas, já que estamos no mesmo quarto. Esse cachecol será útil agora que começou a esfriar.

– Que lugar é esse?

– É a casa.

– De quem?

– Também não sei. Ninguém sabe. Mas todo mundo que tá aqui chegou aqui um dia.

– Isso não faz sentido.

E foi isso. Valéria não era exatamente o tipo de amiga que Luana costumava ter, era intrometida e espalhafatosa, mas ela não estava em condições de escolher muito. Ao menos ela tentava respeitar o espaço da colega, se é que alguém ali realmente tinha algum espaço. Valéria contou que sua única alegria na casa era assistir à televisão, mas que a TV estava quebrada.

– E cadê?

– A TV? Sumiu. Márcio pegou pra tentar consertar…

Eles eram casados. Estavam juntos quando chegaram à casa. E isso era o máximo que ela contaria.

O quarto de Luana tinha muita tralha, mas os outros também. Ela se perguntava como algumas pessoas pareciam ter tantas posses se se “caía” ali apenas com o que se estivesse na hora. E só foi entender quando completou trinta dias na casa.

– Você pode pedir um item. – disse Valéria.

– Item? Pra quem?

– Pro mundo real, sei lá. O que importa é que você pede e ele chega. Mas tem que pensar direitinho, porque é uma coisa só, e só pode pedir uma vez por mês.

Tudo o que ela mais queria naquele momento era algo quentinho para dormir melhor. As noites estavam ficando mais frias e ela se virava com as roupas da mala e um lençol fino.

– Vou pedir um cobertor.

– Não, cobertor é melhor você negociar com a doida. Você tem várias peças de roupa, ela pode gostar de alguma.

– Doida?

– A doida tá aqui há não sei quanto tempo, e todo mês ela pede um cobertor. Ela tem um monte deles. Dizem que ela tem medo de passar frio, eu teria parado no segundo, terceiro.

– Cobertor?

– É.

Pouco tempo depois, a doida a recebeu, relutou bastante, mas concordou em trocar um cobertor pequeno por uma touca de lã, que também seria útil no frio. E assim o que Luana pediu no seu primeiro mês foi um livro, daqueles bem grossos, para que ele durasse o máximo possível e amenizasse o tédio e a desesperança que começavam a tomar conta dela.

Negociar era comum na casa. Cada um chegava com o que estava no momento, e a cada mês se podia pedir um novo item, de forma que naturalmente havia bastantes trocas e algumas pessoas até negociavam por dinheiro, mesmo. Se trocar era a regra, vender nem tanto: vendia quem achava que sairia dali dentro de pouco tempo, achando que estava fazendo bom negócio ao juntar dinheiro e se desfazer de coisas que não eram tão importantes assim.

Fred era um dos vendedores. Se não chegou com nada, ao menos sabia o que pedir mensalmente: produtos que seriam úteis – não para ele, mas para seus potenciais clientes. Ele mesmo não precisava de nada, vivia com o que a casa dava, o que ninguém queria, o que não era de ninguém. Fred intrigava Luana. Ele não parecia feliz nem triste, apenas neutro. Não falava muito e nem enchia o saco de ninguém. Ela não sabia onde era seu quarto, porque ele estava sempre perto da entrada, escorado na parede. Viraram amigos.

– Tá um sol de lascar lá fora, será que eles fazem isso de propósito pra gente não sair? – perguntou Luana.

– Eles?

– Alguém é responsável por isso. Por essa situação que a gente tá.

– É, não sei, pode ser. Comecei a vir pra cá depois do que aconteceu com o Márcio.

– Todo mundo fala do Márcio, mas a Valéria nunca quis me contar o que aconteceu. Nem ela, nem ninguém. Por educação, não pergunto mais.

– O Márcio foi devolvido. – Baixou o tom de voz.

– O quê? – Acompanhou, enquanto se aproximava dele.

– Eles tinham essa TV no quarto. Aqui não há regras escritas, você sabe, mas quando tentam pedir eletrônicos, nada vem, e perdem a chance. Nem telefone, computador, nada. No caso deles, a Valéria acha que estava limpando a TV quando veio pra cá. Márcio estava assistindo com o controle na mão, porque foi com isso que ele chegou.

– E aí?

– Quando chegaram, quem tava aqui se aglomerou no quarto deles para ver se dava pra assistir, mas tudo o que passava no aparelho era o exato programa que estava sendo exibido na hora em que foram puxados. Era um programa de culinária. Algum prato assado, uma coisa assim. Os botões da TV não funcionavam, só o de ligar e desligar, a mesma coisa com o controle.

– Mesmo assim, a Valéria sempre assistia.

– Assistia. Todo dia ela estava lá, na frente da televisão, acho que pra escapar da realidade ou pra tentar voltar pra ela.

– E aí a TV quebrou.

– Isso.

– E o Márcio?

– Ah, é. A Valéria ficou desconsolada. Ela chorava e chorava. Não por não poder assistir de novo seu programa de culinária, a receita já estava gravada na cabeça dela e ela sabia todas as falas, todos os gestos, de cor. Mas acho que, de alguma forma, a TV pra ela era a ligação com o mundo real. Então o Márcio se dispôs a tentar consertá-la. Percorreria os quartos, acharia ferramentas, faria alguma coisa.

– E ele chegou a consertar?

– Não. Por algum motivo, ele foi lá fora. E aí sumiu. Ele e a TV.

Não falaram mais nada. Pelo que sabiam, esse foi o único caso de “devolução” que havia acontecido ali. A tristeza de Valéria fazia mais sentido agora: ela havia perdido seus únicos laços com o mundo real, e com eles, sua esperança. Luana passou a ser mais amigável com ela, ainda que isso lhe custasse algumas doses de energia mental.

Da cabine de comando, eles os observavam por diversas telas, no perfeito estilo sala de monitoramento. Discutiam o grande erro que haviam cometido ao puxar duas pessoas e um aparelho eletrônico. Isso nunca havia acontecido, sempre tiveram cautela ao selecionar pessoas que estivessem longe de seus celulares, de seus computadores, mas se descuidaram naquela vez.

A TV nunca esteve quebrada. Alguém do comando usou a faixa de frequência incorreta, o que abriu um portal no aparelho de televisão, e quando Márcio a carregou nos braços foi puxado de volta. Tudo foi tão rápido que ninguém percebeu. Consertaram a frequência, o portal se fechou, e para não haver maiores riscos, destruíram a TV lá fora mesmo. E todo mundo sabia que não dava para pedir eletrônicos a cada mês.

Só quem não concordava com essa regra era Márcio, que não voltou para o mundo real. Ficou preso na frequência que o puxou, e agora era parte do sistema de monitoramento: ele era as ondas de rádio. E, no que dependesse dele, a casa muito em breve estaria vazia. 

2 respostas para “a casa”.

  1. Avatar de Mariana Goulart
    Mariana Goulart

    Amei muito esse conto!!!!!
    Poderia ter uma continuação, hein?
    QUEREMOS PARTE DOIS DE “A CASA”!!!!!!

    beijos, irneca!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Avatar de kndrgt
      kndrgt

      hihiihih vai ficar pro próximo sonho, então, bjus irneca!!

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