Há coisas no universo que possuem mais de um nome. O vale da sombra da morte, aquele do Salmo 23 (eu fui criada na igreja, mas acredito que a maioria das pessoas é familiarizada com o salmo), hoje entendo como sendo o mundo subterrâneo pelo qual passamos no ciclo da vida-morte-vida.
A existência funciona em ciclos, há tempo de viver e tempo de morrer, tudo um dia acaba para que possa surgir algo novo.
E foi a Clarissa Pinkola Estés quem disse que quando se estiver no mundo subterrâneo, ou seja, andando pelo vale da sombra da morte, há que se prender uma corda no tornozelo, que nos liga ao mundo objetivo, e que essa corda é nossa rotina, são nossos deveres e afazeres.
Aos trancos e barrancos, eu acrescentaria, e a bem da verdade reconheço que estou no tempo de morrer, e que a vontade real é apenas desamarrar a corda e me deixar levar pelo mundo subterrâneo, acredito que isso seja normal, mas de fato me ater minimamente à rotina do dia a dia é benéfico e me ajuda a atravessar o vale com certa graça, até.
E por falar em graça, recentemente ouvi a seguinte frase: “Não tenho medo das coisas serem como elas são”. Acredito que isso também se encaixa nesse contexto, porque representa outra atitude a se ter agora, no presente. Isso e a alegoria dos peixes e da lagoa, em que o peixe é o sentimento, e a lagoa abriga todos os peixes, e deve-se concentrar em ser a lagoa inteira.

Lá pelas idas de 2017 eu resolvi fazer uma mudança no meu quarto: tiraria as bolinhas douradas de papel laminado da parede – que cortei, uma a uma, e colei, niveladíssimas – e pintaria tudo de preto.
A parede era linda. Mas eu estava enjoada dela e queria uma nova, diferente. Achei que o preto cairia bem, mas estava enganada, e ainda me lembro de ter postado as fotos no instagram com alguma legenda do tipo “algo bom tem que ir para dar lugar a algo melhor”. A parede preta ficou horrorosa, não teve nada de melhor ali, é preciso reconhecer.
Somente depois de alguns anos eu fui entender que o que não me cabia mais não era aquela parede, e sim aquela casa, aquela vida. Eu saí de Goiânia, de Goiás inclusive, e fui começar sozinha, do zero, em outro lugar.
Ainda sinto falta daquela parede, motivo pelo qual me convenço ainda mais de que o problema nunca foi ela.

Para as mulheres, às vezes o ciclo da vida-morte-vida é marcado por cortes de cabelo, se trocar a cor, então, significa que uma mudança profunda está acontecendo de dentro para fora, e não tô nem brincando, é assim que acontece, mesmo.
Fazer o exercício de entender onde se está pisando no momento – no mundo objetivo ou no mundo subterrâneo – é importante para que não se analise tudo de modo retrospectivo, ou seja, como eu fiz com a questão da parede. E ainda há que se considerar que pequenos ciclos acontecem dentro de ciclos maiores, mais abrangentes, mais profundos.
Outra forma de se localizar no próprio ciclo é perceber se o leitor porventura se sente empacado, empanzinado, entulhado, sufocado, com uma necessidade urgente de se livrar de coisas, doar, jogar fora, rasgar, no mundo objetivo – pois isso também sinaliza mudanças internas que se refletem no exterior. Quando a vontade surgir, não se deve lutar contra nem deixar para depois. O momento é este e há coisas na vida que ninguém fará em nosso lugar.

Ande, sim, pelo vale da sombra da morte, e não tema mal algum, pois ao olhar para seu próprio tornozelo reconhecerá a corda que te liga ao mundo objetivo. E boa caminhada.
Tal como nós, tal como as estações, tal como os ciclos da vida, a energia move-se em espirais, redemoinhos, ciclos e círculos – muitas vezes sobrepondo-se e cruzando-se à medida que aumenta e diminui. (Evolution of Goddess)
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