Luciana aguardava seu transporte ali, naquele boulevard, depois do trabalho. Era uma quinta-feira de verão, quase outono, e os dias começavam a ficar mais curtos; às dezoito horas e alguma coisa a brisa era leve e o sol se punha, deixando umas cores bonitas no céu, em tons de rosa, azul e laranja.
Ela se sentia tranquila: essa era sua definição de felicidade, um estado de paz, de falta de pendências, de estar ali em corpo e em pensamento. Não tinha fome nem sede, e o cansaço do trabalho servia apenas para deixá-la quase entorpecida e pronta para uma boa noite de sono.
Agora que o leitor foi apresentado ao contexto, digamos, tanto do ambiente externo quanto do mundo interior de Luciana, é um bom momento para informar que, naquele instante, saiu do estacionamento ao lado do boulevard um golf vermelho, vidros abertos, e ela foi até capaz de sentir o cheiro de carro novo, aquele que se sente quando abrimos a porta depois de muitas horas num dia quente. Era, de fato, novo, a pintura reluzia e, ao julgar pelo modelo, seu dono não devia ter mais que uns trinta anos.
Não foi isso, no entanto, que chamou sua atenção. O som do carro estava no último volume. Luciana sempre gostou de ver ou ouvir carros passando com volume alto, pois ela tinha a sensação de que alguém, naquele momento, decidiu externalizar sua emoção, em geral euforia, através da música, e sempre achou que isso era mais importante, guardadas as devidas proporções, que fazer silêncio para não incomodar os vizinhos. Afinal de contas, o veículo passava rapidinho, perturbava a rua por alguns segundos, se fosse o caso de perturbação, mas para ela essa era uma forma de compartilhar boas energias, pelo menos era como ela se sentia sempre que ouvia um carro passando com música alta na frente da sua casa.
Mas nesse dia foi diferente. Luciana pensou por alguns segundos se já tinha ou não escutado aquela música antes, porque ela se internalizou tão rapidamente dentro do que costumamos chamar, nessas horas, de coração, que ela sentia como se a letra, o arranjo, a melodia, estivessem tocando dentro de si por toda a sua vida. Era um rapzinho suave de ouvir, gostoso até, que em geral despertava sensações boas nas pessoas.
Acontece que Luciana não se sentiu alegre. Ela teve uma sensação diferente, como quando a gente se apaixona e a vida joga no nosso colo uma música específica, imitando a arte, como que providenciando a trilha sonora daquele momento. Mas ela não estava apaixonada. E o que é que se faz quando a melodia toca, mas a cena não existe?
Naquela noite, Luciana chegou em casa, facilmente encontrou o rap na internet, recém lançado à época, e o colocou para tocar, uma vez, duas, aprendeu a letra, deixou no repeat. Botou um vestidinho fresco, abriu um vinho, colocou água para ferver, frigideira no fogo. Ela bebia e se sentia mais estranha a cada gole, tentava entender como uma música tão bonita poderia fazê-la sentir dor. Desembrulhou um medalhão de filé mignon, amassou uns dentes de alho, cortou um ramo de alecrim do seu projeto de horta indoor, jogou óleo e manteiga na frigideira quente. Estava feliz e triste. Abriu a geladeira, pegou o que mais poderia precisar. Picou batatas e cebolas para fazer um purê.
Percebeu que chorava. A história que Luciana contou para si mesma é que seus olhos estavam irritados, mas a verdade é que era a primeira vez que ela vertia tantas lágrimas, que chorava copiosamente, chegando a soluçar, em cima de quadradinhos de cebola.
Luciana se apaixonou, não sabendo por quem, e teve seu coração partido ao se dar conta da intangibilidade do objeto de seu sentimento. Tudo em uma única noite. Bebeu mais uma taça de vinho, sorrindo, resignada, em meio às lágrimas.

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