Estou na sala 1 do Cinemark. Quando era mais nova, costumava assistir aos filmes que estavam em cartaz uma vez por semana, hábito que foi se dispersando com o passar dos anos e que morreu em 2020. Recentemente, porém, experimentei voltar a frequentar as salas de cinema. Neste momento, estou sentada numa poltrona de canto, já coloquei o canudo no copo de refrigerante e, por milagre, não derrubei a pipoca. Estou orgulhosa de mim mesma por não ter me atrasado muito. Os trailers já começaram, mas tem alguma coisa errada.
A sala não está completamente escura. Percebo uma fonte de luz branca em algum lugar, que encontro, sem esforço, quase à minha frente.
Do alto da minha I4 eu tenho uma boa visão da tela do celular do senhor da poltrona F9, um homem de uns cinquenta e poucos anos. Eu gosto de assistir aos trailers exibidos antes do filme, mas não tanto quanto gosto de futricar, protegida pelo anonimato da escuridão da sala, o que as pessoas fazem em seus smartphones. E, no caso em tela, literalmente, o homem está utilizando o Instagram. Ele se encontra particularmente interessado nos stories, aquelas publicações que duram apenas 24 horas, porque dá pra ver ele rolando as bolinhas pra lá e pra cá, clicando em algumas, saindo do aplicativo e voltando quase que no mesmo instante. Penso comigo, em um tom que mescla julgamento e piedade: ansiedade… o mal do século…. não, espera, essa era a depressão… enfim… não aguenta nem esperar o filme começar sem largar o telefone…
Logo percebo que estava errada. Não é ansiedade, ou pelo menos não dá para deduzir isso de imediato, pois este senhor não desliga a tela mesmo agora que o filme já começou, e aqui gostaria de deixar claro que estou, sim, chateada com a luz me atrapalhando, mas essa não é a pauta do assunto de hoje, então cabe ao leitor considerar que não sou tão good vibes e que este desconforto existe, sim.
Como eu ia dizendo, o F9 não desligou o celular, o que me leva a crer que a chamada que fizeram do Deadpool com o Wolverine implorando para que o público tivesse bom senso não surtiu efeito algum no homem.

É dizer, o filme já começou e ele continua lá, rodando pelos stories, voltando mesmo aos que ele já tinha visto. Começo, então, a elaborar teorias:
Lista de teorias
- Homem é obrigado pela mulher a assitir a um filme para o qual ele não dá a mínima, pois "precisamos fazer mais programas de casal"
- Homem entra em sessão qualquer enquanto espera os filhos assistirem a Divertidamente 2
- Homem está traindo a esposa - ou estaria, se a dona dos stories repetidamente visualizados desse uma chance a ele
- Homem não está traindo a esposa - ele não tem uma - e gostaria muito de ter uma chance com a dona dos stories repetidamente visualizados
- Homem simplesmente tem ansiedade causada por vício em redes sociais
Agora noto que o cinema voltou a ficar escuro, penso até que enfim este homem recobrou sua sanidade. Como o leitor já deve imaginar, em alguns minutos a tela maldita já está novamente acesa, eu assumo uma postura beligerante, o meu pensamento muda para mas não é possível, pagou ingresso pra quê, então?, e minha pergunta é rapidamente respondida quando noto que o filme está espelhado na tela do celular: o senhor da F9 está gravando um story bem, mas bem longo, pois aparentemente não há nada mais importante do que avisar aos seus seguidores que você é alguém que utiliza o celular no cinema com o filme rodando.
Mas assim.
Quem posta quer saber quem visualizou.
Então nosso homem, algum tempo depois de ter produzido seu conteúdo, retorna ao Instagram pela, acredito, terceira vez após o início do filme para tomar ciência de quem já viu que ele está no cinema. Ele fala com alguém que respondeu à sua publicação.
Eu fico confusa, sem saber por que demônios ele ainda não tirou uma selfie com o flash ligado.
Aí me lembro que entrei na sala já no meio dos trailers. Ele pode, sim, ter feito isso.
Duas mulheres atrás de mim – essas, sim, entraram atrasadas – ignoram o contexto dado no começo do filme e se perguntam se o adesivo que a atriz está colando na cintura é Salonpas.
É fentanil. Aquele que está matando gente nos Estados Unidos.
Fiquei distraída com o diálogo entre as mulheres e deixei o senhor da F9 por alguns minutos sem monitoramento. Agora ele está, o leitor adivinhou, no Instagram, e eu poderia jurar que o vi printando a tela. Por que o homem fez isso? Em quais teorias este comportamento se encaixa?
No fim das contas, uma publicação – ou duas, se for contar a selfie hipotética – e a interação social gerada a partir daí não parecem ter valido o preço do ingresso, então acredito que o homem da poltrona F9 tenha saído no prejuízo. E eu também, porque agora terei que assistir ao filme de novo para entender a história.
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