cirurgia

21/08/2024

Por que o ser humano se submete a certos aborrecimentos – para dizer o mínimo – sem que isso seja absolutamente necessário?, pergunto a mim mesma enquanto tenho alguns ossos quebrados e a boca parafusada e costurada por dentro.

Os dias possuem, em média, duzentas horas.

É absolutamente horrível pensar na quantidade de tempo que ainda ficarei sem mastigar uma comidinha, não importa quantas vezes eu repita para mim mesma que os transtornos passam, os benefícios ficam. É como se eu fosse morrer na forma que assumo hoje: inchada, mole, caquética.

Decidi fazer essa cirurgia – uma osteotomia mandibular – porque, mais vezes do que eu gostaria de admitir, eu acordava com dores de cabeça (sério, amiga?, dores de cabeça?). Será que não valeria mais a pena sentir essas dores daqui pro resto da minha vida, sendo sócia da Novalgina?

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26/08/2024

O que tem me ajudado nesses dias de pós-operatório é ver gente em situação pior que a minha. Os meus favoritos são uma mãe solo com quatro filhos, que recebe migalhas de pensão e cuja casa é uma zona, e uma manicure que mexe em uns pés bem sujos, bem ferrados, cheios de terra nas unhas.
Ou então o extremo oposto: gosto de me torturar. Sabe deus quantas lives de chapeiros e pizzaiolos eu assisti nos últimos dias. Aprendi a fazer x-tudo. Aprendi quantos quilos tem uma pizza grande (quatro, se for a de doze pedaços, e aprendi inclusive que existem pizzas de doze pedaços). Aprendi como se opera e como se limpa uma chapa de padaria.

Tudo o que não estou comendo ou assistindo eu estou comprando. Faço ao menos uma aquisição de roupas, cosméticos ou acessórios por dia, passo horas enchendo carrinhos em diferentes lojas, sei identificar de onde vem uma peça e o que está na moda no momento, estou aguardando o Bradesco me ligar para confirmar se meu cartão não foi, por um acaso, roubado. Foi, sim, direi ao banco, pelo espírito da mente vazia, oficina do cão.

Até o momento, apenas em forma de comprimidos, calculo que consumi uns trinta gramas de dipirona monoidratada pura. E eu detesto dipirona. Não sei se o leitor se identifica, mas, ao menos para mim, ela deixa a cabeça oca e a água com cheiro (assemelhado ao cloro). Se deixo de tomar dipirona, meus pontos dão uma doída chatinha que vai evoluindo até que eu deixe o medo da dor vencer e finalmente pegue o comprimido áspero e amargo. Antigamente eu o atirava no fundo da goela, mas agora, com minha abertura bucal diminuída em 90%, a dipirona mal passa pelos meus lábios (que estão inchados), é obrigada a sair rolando e raspando na minha língua enquanto deixa traços daquele sabor de corrimão metálico, para só então alcançar a garganta.

Quando percebo que quero chorar, isso geralmente significa que estou com fome. A base da minha alimentação tem sido leite integral, café e YoPro 25g, é dizer, estou sendo bem cuidada.

– preciso fazer as coisas com intenção – aquisição?; via

29/08/2024

Posso dizer que, quanto ao meu pós-operatório, estou jogando a vida no easy. Com nove dias de cirurgia meu médico achou por bem me liberar para comer, leia-se mastigar, arroz e macarrão bem cozido, frango desfiado e carne moída, ovos mexidos.

Ovos. Mexidos. Vulgo segundo item da minha lista de coisas que quero comer quando eu puder comer:

Minha amiga Tatiane diz que sou reptiliana. Meus médicos se impressionam com a velocidade da minha recuperação. Ela teve pouquíssimo inchaço após a cirurgia, diz a dra. Karla, enquanto o dr. Shajadi examina minha boca, com o auxílio de um espelhinho e de uma enorme pinça, e neste momento o meu medo é que ele pegue uma tesoura e saia cortando e puxando meus pontos, mas depois descubro que eles vão cair sozinhos, são absorvíveis. Como disse, estou jogando no easy.

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E a primeira coisa que comi utilizando os dentes foi um delicioso pudim de padaria.

31/08/24

Minhas covinhas voltaram a aparecer. Significa dizer que meu rosto está, aos poucos, desinchando, o que é boa notícia, pois o look Fofão de Botox não combina com minha estética.

Se estou séria, quem não me conhece não nota que estou com bochechas maiores que o normal. Se sorrio, pareço uma senhora cujos procedimentos estéticos foram longe demais. Se falo enquanto uso o Invisalign, quem me ouve pensa que está interagindo com o Patolino, basta fechar os olhos.

Apesar disso, minhas férias já estão com cara de férias e não de licença médica. Com a introdução de alimentos não humilhantes, ou seja, Alimentos Que Não São Sopas E Caldos, a pira por comer coisas diferentes já diminuiu muito. Qualquer paixão me diverte.

Ontem mesmo fui ao parque e me senti fora de São Paulo, fora do Brasil, fora do espaço e do tempo. Tudo o que me importava estava ali, naquele momento. As árvores estavam extravagantemente verdes e o céu estava azul como naqueles dias de inverno sem nuvens e com sol. E, a bem da verdade, estamos mesmo no inverno.

Parque Ibirapuera

Terminei dois livros nas últimas duas semanas, e embora isso possa parecer muito, acredite o leitor quando eu disser que não é, e para checar a veracidade da informação é só acessar os dados de tempo de uso de celular desde que eu fiz minha cirurgia. É ridículo.

No mais, eu sou uma mulher feliz.

quem, eu?; via

2 respostas para “cirurgia”.

  1. Avatar de TATIANE DA SILVA RAMOS
    TATIANE DA SILVA RAMOS

    Reptiliana simmmmm!

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    1. Avatar de kndrgt
      kndrgt

      Se sim, se não, o importante é que tá dando certo kkkk bjus Tati!

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