a castanha

Quando Deus ordenou que os anjos, então estagiários de Agronomia, criassem uma espécie de castanha que agradasse o paladar humano, a legião se dispersou e cada um tomou o seu assento.

O arcanjo Rafael começou a rascunhar, em seu pergaminho, um tipo de amêndoa com formato de meia-lua. Ela teria um sabor levemente adocicado, harmonizaria bem com peixes – sua especialidade – e poderia nascer de um fruto que já existia: o caju. A ideia era perfeita: simples, eficiente, e não demandaria a criação de uma espécie completamente nova. O Senhor aprovou o projeto sem ressalvas.

O anjo Gabriel, que tinha um certo apreço pela América Latina, e em especial pelo nosso país, decidiu criar uma castanha com selo de indicação geográfica, parecida com a gente: casca grossa, mas o importante é o que tem dentro. Quem conseguir quebrar a casca, pensou ele, é digno de sentir o melhor sabor que há nestes arredores. O interior seria composto por uma deliciosa amêndoa branca, de sabor complexo, e dentro dela haveria mel. E assim desenhou a castanha-do-pará. Deus mandou tirar o mel, pois onde já se viu um produto das abelhas estar disponível no interior de uma castanha, isso seria um prato cheio para os teóricos da conspiração, e aprovou o resto.

Miguel era mais ousado. Sabendo que os humanos precisariam, no futuro, exercitar a paciência, projetou uma amêndoa com formato de cérebro, minuciosamente intrincada na casca, que era bastante dura e difícil de se partir ao meio com perfeição. Disse a Deus que as pessoas poderiam vendê-las em lojas de produtos naturais, inteiras ou em quartilhos, e assim, mesmo quem não tivesse muito dinheiro ainda poderia provar o seu sabor, que seria, aliás, quase sempre rançoso, ensinando a valiosa lição de que nem sempre coisas caras são boas. O Senhor se alegrou com a ideia de Miguel e aprovou, então, o que conhecemos hoje como nozes.

O anjo Uriel rabiscou um formato engraçado, nem quadrado, nem redondo. Como sabia que o ser humano, daqui a algum tempo, começaria a beneficiar e a processar os produtos da terra, criou uma castanha extremamente aromática, que poderia ser triturada, juntada a alguns outros ingredientes e transformada em Nutella. E Deus viu que a avelã era boa, e permitiu que ela fosse criada. Gabriel tentou argumentar, dizendo que sua castanha-do-pará-com-mel também era uma sobremesa, mas Deus ameaçou tirá-la do Brasil, e isso foi suficiente para que ele se aquietasse.

Enquanto isso, num canto isolado nas nuvens, o anjo Azazel desenhava um sol, uma casinha, duas árvores e alguns pássaros, fingindo estar criando alguma coisa. Simplesmente não tinha nenhuma ideia do que fazer. Ele não era muito popular, e de vez em quando o Senhor esquecia o seu nome; ultimamente seu trabalho era o equivalente, no céu, a pintar as árvores com cal – tarefa risível -, e ele queria ser reconhecido por alguma coisa. Queria criar algo realmente grande. Pensava nisso, distraído, quando avistou um rabo com uma flecha vermelha na ponta. Lúcifer, digo, o Diabo, que havia se mudado recentemente para um novo condomínio, levando um terço de seus colegas, estava ali ao seu lado, meio escondido, meio à mostra. Propôs ajudá-lo em sua empreitada.

– Qual é a sua ideia?

– Eu posso criar uma castanha muito melhor do que todas as outras, com sabor único, crua ou assada, inteira ou triturada, cuja casca é fácil de abrir e o interior possui uma coloração muito bela e atrativa aos olhos humanos. Será bastante refinada, coisa chique, mesmo.

– E o que você quer em troca?

– Venha morar conosco. Tem lugar de sobra. A galera do beach tênis tá sentindo a sua falta. Estamos com uma quadra legal lá, tem quiosque e tudo.

Azazel pensou, pensou, e quis negociar.

– Eu vou. Mas antes quero ser reconhecido pela minha criação aqui em cima. Preciso provar o meu valor.

– Fechado.

De fato, naquele ano Azazel ganhou o prêmio de Melhor Projeto de Empreendedorismo do Paraíso, tamanha a satisfação do Criador com sua ideia. Só que algo estranho aconteceu: os outros anjos, dia após dia, se deleitavam ao observar, por entre as nuvens, os humanos lá na Terra comendo suas castanhas. A única que não era sequer tocada por mãos humanas, somente por pássaros e pequenos roedores, era a amêndoa de Azazel. Ou seja, na prática, o anjo continuava jogado para escanteio, esquecido como retrato de funcionário do mês que, na real, não serve para nada.

Acontece que o Diabo recebe esse nome por uma razão e não dá ponto sem nó. Enquanto Azazel arrumava suas malas para se mudar para o novo condomínio criado por Lúcifer, pois já havia ganhado o reconhecimento que lhe era devido e precisava cumprir com sua parte do combinado, olhou de novo o contrato que havia feito por ocasião da criação da castanha. Dessa vez, notou as letrinhas miúdas, no rodapé do pergaminho, que diziam: “A castanha acima referida, denominada pistache, somente será descoberta pelos seres humanos no ano de 2024 E.C.”.

2 respostas para “a castanha”.

  1. Avatar de Mariana Goulart
    Mariana Goulart

    MA RA VI LHO SOOOO!!! Me diverti horrores com esse conto. Muito bom! Na vida eu sou o Azazel, sem saber o que fazer, desenhando casinha

    O melhor de tudo é que a cada castanha eu consegui sentir o sabor na boca heheheheh que tudo! Adorei.
    Parabéns pela criatividade! Você é uma ótima escritora.

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    1. Avatar de kndrgt
      kndrgt

      Irna, obrigada!!! Fico feliz que você tenha gostado ♥ heheheh

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