histórias de goiatuba: buiú

Era uma segunda-feira de inverno quando nos aproximávamos da estreita portinha de metal que dava acesso à nossa casa. Apesar do frio, o sol brilhava às nove da manhã, iluminando nossas calcinhas, dispostas cuidadosamente, uma ao lado da outra, na mureta da sorveteria do lado de casa.

Na época com uns oito anos, eu me virei para a minha mãe, que levava uma mala de rodinhas, já que tínhamos acabado de voltar de viagem, e perguntei, na maior inocência, o que nossas calcinhas estavam fazendo naquele lugar, assim, pra todo mundo ver. Eu já tinha uma ligeira ideia, pensei que minha mãe as tinha deixado ali para secar, mas a situação ainda parecia estranha para mim.

Minha mãe, cuja experiência supera a minha em vinte e dois anos, achou aquilo muito estranho, para dizer o mínimo, e saiu recolhendo todas as peças. Formou, então, uma fila indiana em que ela era a primeira, seguida por três crianças, a saber minha irmã, meu primo e eu. Desse jeito passamos, sorrateiramente, pela portinha – que estava aberta – e atravessamos o corredor que levava ao nosso quintal.

Nesse ponto, acho importante destacar que o corredor em questão era duas coisas: bem longo e bem estreito, quase claustrofóbico, e completamente fechado nas laterais, ou seja, não havia nenhuma porta ao longo do caminho. Havia, sim, uma espécie de luz no fim do túnel, a saída do corredor, para uma área completamente aberta, que revelava o céu de Goiatuba e um enorme pé de acerola do lado direito da passagem, feita de brita, que dava num portãozinho. Do lado esquerdo, entulho e uma horta abandonada.

Passamos pelo portãozinho, que minha mãe abriu com o maior dos cuidados para não fazer aquele rangido característico dos velhos portões de metal que ficam expostos ao tempo.

Ainda era o nosso quintal. Essa parte, no entanto, apesar de aberta, já revelava a lateral da casa. O caminho agora era feito de concreto, a brita ficava nas laterais, e uma nova horta – dessa vez um pouco mais bem cuidada – ficava à esquerda. À direita, um puxadinho: nossa área de serviço, bem espaçosa, que comportava um tanque e, se não me falha a memória, uma mesa de quatro cadeiras.

Pé ante pé, atravessamos mais essa parte e viramos à esquerda. O leitor não fique surpreso quando eu disser que, depois do muro, havia ainda uma outra área aberta, essa toda gramada, que abrigava uma fértil pitangueira cujos frutos eram lindos, suculentos e docinhos. Na grama eu sempre achava tatus-bola. Mas não naquele dia: naquele dia estávamos mais preocupados em descobrir quem colocara nossas calcinhas em exibição.

Minha mãe abriu, silenciosamente, a porta da sala. A casa era enorme e, querendo ou não, tivemos que andar ainda mais até chegarmos aos cômodos que ficavam no fim do corredor. De repente, olhando para dentro de seu próprio quarto, minha mãe se vira em nossa direção e gesticula com a boca: LADRÃO.

O que eu entendi foi ARANHA, mas não criei caso e voltei para trás conforme ela indicava com as mãos. Imagine o leitor quanto tempo parece ter durado toda a nossa volta, do quarto até a rua, passando por todas aquelas áreas e corredores, sabendo que havia um estranho, aparentemente dormindo, na cama de minha mãe.

Lá fora, ainda com mala e tudo, ligamos para a polícia.

Eu tinha apenas oito anos, mas me lembro de que os policiais não demoraram a chegar. Alguns minutos depois, eles saíram lá de casa com um sujeito sonolento amparado pelos braços, disseram senhora, esse é o Buiú, ele não faz mal pra ninguém, mas se a senhora quiser pode dar queixa.

Minha mãe não quis. Deixou ir o Buiú, com os policiais, e dessa parte eu não me lembro, mas posso apostar que ela queimou toda a roupa de cama e, no mínimo, deixou o colchão pegar sol o dia todo antes de colocá-lo de volta no estrado, naturalmente do lado contrário.

2 respostas para “histórias de goiatuba: buiú”.

  1. Avatar de Mariana Goulart
    Mariana Goulart

    Essa história é maravilhosa, racho o bico toda vez. Até hoje fico pensando “será que essas calcinhas estavam lavadas em cima da cama da mãe, tipo quando a gente tira do varal e leva pro quarto pra guardar mas na pressa acaba deixando na cama mesmo, e o buiu coitadinho pra poder se deitar, tirou as calcinhas da cama e não sabendo onde colocar achou uma ótima ideia colocar no muro da sorveteria 🤩” KKKKKKKKKK

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    1. Avatar de kndrgt
      kndrgt

      kkkkkkkkkkkkkkk

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