os túmulos de Michele

Há quem decida por fazer, na vida, coisas incomuns. Michele, por exemplo, limpava sepulturas de graça. Tudo começou como um trabalho voluntário que ela decidiu prestar após perceber que o estado de limpeza e conservação dos túmulos vizinhos ao de Dona Maria, sua avó, não era dos melhores: nada contrasta tão fortemente quanto um túmulo novo e um antigo, colocados lado a lado, ainda que os dois signifiquem a mesma coisa. Virginiana e obcecada por limpeza, decidiu dedicar suas segundas-feiras de folga a lavar os jazigos próximos ao da avó.

Tirar a sujeira e o limo que se formam em volta de uma construção desse tipo não é tarefa simples. Funciona mais ou menos como lavar um banheiro: o rejunte vai escurecendo com o passar do tempo, há a ilusão de que escova e detergente serão o bastante para desencardi-lo, o que obviamente não é verdade, como se pode constatar após cerca de um ou dois minutos esfregando o mesmo lugar. Sem sucesso, a mão começa a doer, e em algum momento da vida se aprende que é necessário, para começo de conversa, jogar água sanitária a fim de acabar com o mofo. Dez minutos depois a queimação no nariz já foi instaurada, mas pelo menos a mancha escura desapareceu, e agora basta aplicar o cloro ativo em todo o restante do banheiro e, aí sim, esfregar o que resta: a verdadeira sujeira.

Além de limo, um cemitério está sempre cheio de árvores frondosas, as mais saudáveis que se pode encontrar, pois há toda a questão da matéria orgânica e, por que não?, da tranquilidade do local. Árvores possuem folhas, que invariavelmente caem e vão cobrindo as inscrições nos túmulos. Galhos, terra solta, ervas daninhas que nascem em pequenas frestas, tudo isso tem de ser removido para que o jazigo fique novamente apresentável. É preciso utilizar vassoura, luvas, sacos de lixo, água e sabão.

O trabalho era exaustivo e geralmente fazia sol e calor, de forma que a meta de Michele era basicamente conseguir limpar uma sepultura por semana. Para fazer um comparativo do antes e depois do processo, decidiu filmá-lo, o que por si só era satisfatório de se acompanhar: foi assim que Michele postou seu primeiro vídeo de limpeza de túmulos na internet, e em pouco tempo já estava monetizando seu hobby.

Um dia, enquanto guardava seu material de limpeza, avistou uma alma penada que morava na rua da frente, sentada próxima à lápide, com uma carinha entristecida. Perguntou o que havia acontecido.
– Queria que você limpasse chez moi – disse ela -, mas estou vendo que somente os moradores dessa fileira aí estão sendo contemplados.
Contemplados, Michele riu por dentro, decerto eu agora sou programa de governo. Achou a alma um tanto vitimista e até meio passivo-agressiva, mas concordou em limpar seu túmulo na semana seguinte, e assim o espírito desapareceu, visivelmente (para quem podia vê-lo) feliz.

Como prometido, na semana seguinte a limpeza foi feita e, mais uma vez, quando se preparava para ir embora, outra alma penada surgiu, dessa vez atrás de Michele, que deu um salto. Por favor, por favorzinho, você poderia limpar minha casa também?, e a resposta foi a mesma, é claro que posso, volto na próxima semana e deixo tudo arrumadinho.

A mãe de Michele achava seu trabalho nobre, porém perigoso: dizia que ficar nesses lugares atraía o mal, mas a filha não se importava, ria e dizia que devemos ter medo dos vivos e não dos mortos.

Quando deu por si, viu que estava prestando um serviço por encomenda, imagine o leitor que agora as almas faziam fila diante de Michele, que por sua vez anotava os locais e datas de cada limpeza. Para dar conta de tantos pedidos, Michele passou a dedicar dois dias da semana ao cemitério, dois túmulos por dia, quadruplicando assim a quantidade de almas contempladas, com alguma perda na qualidade do serviço, mas nada grave, pensava ela. O trabalho era desgastante, como eu já disse, mas pelo menos ela o transformara em uma renda extra por meio da internet.

Fazia uma bela tarde de sol e Michele esfregava uma lápide – uma das partes favoritas dela e de seus seguidores, porque era onde dava para conhecer mais sobre o inquilino que ali morava -, quando um espírito se aproximou, mas esse era diferente: trajava uma comprida cartola preta, casaco de lã, também escuro, e levava uma mala de couro na mão direita.

– Muito boa tarde – disse o senhor. – Vi seus vídeos outro dia e gostaria que limpasse meu túmulo, por gentileza.

– Boa tarde – Michele largou a escova dentro do balde e limpou a testa com o dorso da mão. – Claro, tenho alguns na frente, mas me diga qual a sua fileira que já deixo anotado.

– Não fica nesse cemitério. É que eu moro em outra cidade. A uns… oitocentos quilômetros daqui.

– E por que o senhor veio de tão longe para me pedir isso? – Michele franziu a testa.

– Você não aparecia nas sessões espíritas.

– Não frequento lugares religiosos.

– Bom, agora estou aqui. Você pode limpar ou não?

– Eu não sei… Não posso sair da minha cidade. Tenho um emprego, além do mais precisaria comprar passagens, reservar hotel, todas essas coisas.

– A gente vai rapidinho. É só segurar a minha mão.

Há cerca de um ano Michele visitava o cemitério todas as semanas e tinha contato com as almas penadas, mas pela primeira vez se surpreendeu de verdade. Será que ela poderia, então, viajar com os espíritos? O medo de vomitar durante a viagem – fato que hoje é bastante conhecido por causa dos filmes de ficção científica – a fez ponderar durante uns cinco segundos.

O senhor ofereceu a mão e Michele a segurou.

Foi somente ao chegar ao local que ela reparou uma atmosfera estranha, uma espécie de neblina morna, não havia mais sol e tudo estava mergulhado na penumbra.

– Que lugar é esse?

– Cidade dos Mortos.

– A oitocentos quilômetros do meu cemitério?

– Oitocentos quilômetros abaixo.

O senhor tirou a cartola e usava um capuz. Tirou o casaco e usava uma longa vestimenta, toda preta, com capa e tudo. Abriu a mala e pegou uma foice. Ele era A Morte.

– Por acaso eu morri? – A essa altura Michele já estava claramente irritada.

– Sim.

– Por quê? De quê?

– A hora chega quando tem que chegar.

– Mas não é assim que funciona. Você me enganou. A Morte aparece vestida dela mesma, e não como um fantasma que solicita limpeza de jazigo.

– Mas a injustiça não é um crime de verdade, é?

4 respostas para “os túmulos de Michele”.

  1. Avatar de Mariana Goulart
    Mariana Goulart

    Que conto MARAVILHOSO!!!!!
    Adorei a história! Como sempre muito bem pensado e escrito!!!! Amo seus contos.
    No final das contas, Michele morreu porque? Cabem várias interpretações pra morte dela. Isso foi muito legal!

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    1. Avatar de kndrgt
      kndrgt

      Obrigadaaa irneca!!! Que bom que você gostou. Aí é que tá, ninguém sabe a causa mortis dela, cabe a cada um imaginar

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  2. Avatar de F. Matos
    F. Matos

    Esse texto foi loco! Acho que na hora que começou a queimação no nariz, a Michele foi pro saco.

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    1. Avatar de kndrgt
      kndrgt

      Olha, pode ter sido isso…

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