Hoje de manhã eu vi, em meio aos carros, um motoboy cujo baú instalado em sua garupa trazia os dizeres “não é pizza, é ração”, e fiquei me perguntando qual a utilidade da frase senão a autorização tácita, a concordância plena do público geral em permitir que este homem voe, costure por entre os carros, empine sua moto. Mas não vim falar disso.
A fim de celebrar o aniversário do meu namorado, esta semana fomos ao restaurante Zucco, que fica na Haddock Lobo, para jantar. A comida estava maravilhosa, o atendimento, impecável, mas o ponto alto da noite ainda não havia chegado.
Trinta reais e oito centavos foi o valor que pagamos (o casal) para viver a experiência que apenas Eduardo, o Uber, poderia nos proporcionar. Sentados confortavelmente no banco de trás, percebemos que o rádio tocava uma música dos anos 80. Não sozinha. Eduardo cantava junto. Não apenas cantava. Eduardo cantava, fazia os solos de guitarra, balançava a cabeça, curtia o momento.
O leitor mais assíduo pode se lembrar de uma vez em que eu disse que gosto de ouvir carros passando na minha rua com música em volume alto, adoro a vibe, e em geral isso se estende a motoristas que cantam no carro sem se importarem com a quantidade de estrelas na avaliação do passageiro. Tipo o que estava acontecendo nessa situação.
Eduardo cantarolava, tranquilo, enquanto nós discutíamos uma série de assuntos casuais, como é de nosso costume, e de vez em quando ele abaixava um pouco a voz, e depois voltava a cantar alto. Numa dessas, atravessando a Av. Brasil, o Felipe levanta a bola: “lembra que você me perguntou que loja era aquela, toda iluminada, na foto que eu te mandei?, é essa aí”, e isso foi o suficiente para que Eduardo interrompesse, para sempre, sua cantoria, e começasse a conversar conosco.
A loja é a Tânia Bulhões, que, segundo o próprio Eduardo, vende itens diversos para casa, como louças, prataria, decoração, e que uma mísera fruteira lá custa cerca de vinte mil reais, ou cinquenta, agora não me lembro direito e tenho quase certeza de que ele mesmo deu dois preços diferentes para a fruteira. Coisa sofisticada, ele disse, símbolo de status para os ricos, que moram ali atrás do Parque Ibirapuera, esses ricos. Sobre a Tânia Bulhões, Eduardo concluiu dizendo que sabia dessas informações porque ele próprio ficou curioso com a “casa enorme toda iluminada” e foi pesquisar na internet.
Os ricos, continuou, não acham mais onde gastar dinheiro, então procuram coisas bizarras para comprar, tipo mãos de gorila, já viu isso?, eles compram para fazer magia negra ou simplesmente como objeto de decoração, a mão fica assim, segurando um charuto, é muita loucura. De vez em quando Felipe e eu alimentávamos a conversa com alguns incentivos, tipo “como pode, né?” e “que doideira”. Ouvir o Eduardo conversar era um deleite, por todo lugar que passávamos ele tinha um comentário a fazer, que ficava ainda melhor com o timbre e a entonação de voz dele. Se não for um personagem, Eduardo se parece muito com um.
E as casas daquela região, juro que a casa mais louca que eu já vi foi lá, ele prosseguiu, com uma habilidade descritiva impressionante, narrando como se aproximou, de carro, de uma mansão desenhada por um arquiteto japonês, cujos muros eram feitos de granito, dessa cor aqui, apontou para o painel do carro, e nessa hora eu já me encontrava basicamente imersa no universo que ele havia criado. Mas esses ricos, pra mim todo rico é safado, aí você entra na casa deles e tá lá as mãos do gorila e a cadeira de cinquenta mil da Tânia Bulhões, fechou, mostrando uma incrível capacidade de retomar um tópico anterior e revelando que eu estava bastante enganada ao achar que ele já havia largado do pé da Tânia Bulhões.
As histórias eram simplesmente boas demais. De vez em quando, eu apertava a mão do Felipe e vice-versa, e trocávamos risinhos genuínos.
Em 97 eu tinha uma namorada que morava aqui, a casa dela ficava na Whitaker com a Ytaipu, eu morava no Centro, voltava de metrô, mas sabe como é, daí dava meia-noite, o metrô fechava, mas ainda tinha esse ônibus que passava, ele fazia desde a divisa Diadema, só que nesse dia eu perdi o ônibus também, Eduardo contava, com empolgação. Nessa hora, Felipe e eu estávamos completamente investidos no episódio e queríamos muito saber como foi que o Eduardo fez para chegar em casa. Não precisamos esperar muito, já que ele continuou, animado: “peguei carona com o caminhão de lixo até o Pastorinho e terminei o trajeto a pé”. Eu conseguia visualizar todo o caminho na minha cabeça, pelo menos até a descida do caminhão de lixo. Quando Felipe perguntou se não era perigoso, Eduardo respondeu, ainda mais animado, dizendo que em 97 São Paulo era outra coisa, que você poderia andar com ouro na cabeça e mesmo assim ninguém te assaltaria, que era muito tranquilo e que havia, no máximo, um mendigo aqui, um bêbado ali, todos inofensivos.
Só que aí nós chegamos em casa. Nosso espetáculo havia acabado. Preciso ser honesta com o leitor e dizer que eu ficaria mais meia hora ouvindo as histórias de Eduardo, o Uber, sem me cansar. Mas pagamos apenas trinta reais, e isso só nos levava até a minha rua, então descemos do carro, depois de nos despedirmos animadamente dele.
A Tânia Bulhões e seus caríssimos objetos de decoração não saíam da minha cabeça. Eu ficava imaginando como seria a tal fruteira, seu formato, tamanho, peso e material. Quando anunciei, obstinada, que buscaria imediatamente a peça no site da marca, meu namorado sorriu com o celular na mão: já estava pesquisando. E qual não foi nossa decepção ao ver pratos de duzentos reais e xícaras de setenta. E nenhuma, repito, nenhuma fruteira custava mais de mil reais.
Felipe riu. “Ele exagerou para fazer poesia.”
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