azul celeste

Numa dessas tardes pálidas e monótonas, cansada de ficar sentada, decidi caminhar pelos arredores do lugar onde trabalho. Esses passeios não aconteciam por acaso: funcionavam como rondas, fiscalização fortuita, inspeções de segurança. Eram importantes para verificar pequenos desvios, condições inseguras, coisas do tipo que só se identifica passando pelos locais em horários não acordados.

Tudo parecia correr bem, e corria, imaginava eu, ainda ligeiramente entediada.

Parei diante do ambulatório. As portas eram feitas de vidro jateado, do tipo que não dá para ver nada que se passa do outro lado, e apenas uma delas abria.

Empurrei a porta. O corredor que levava até a recepção possuía, à direita, uma balança corporal ao lado de um bebedouro alto. Nesse exato ponto, no instante em que eu entrei, um funcionário curvado para frente pesava um copinho de plástico com água pela metade, olhava o visor da balança e dizia, divertido: “sessenta e cinco”. Quando me viu, rapidamente tirou o copo, mas sabendo que tinha sido pego, deu uma gostosa risada que se juntou à minha.

O restante do meu dia foi leve e alegre. Não há nada como vivenciar um adulto se deixando levar por uma curiosidade infantil. Fiz minhas apostas que naquele dia, naquela semana, ele contaria, empolgado, aos amigos, ou quem sabe à família, na hora do jantar, que um copinho de plástico com um pouco de água pesa sessenta e cinco gramas.

Outro dia aconteceu algo que me iluminou por dentro, também. Voltando do trabalho, já de noite, um frio lá fora, aquele tempo típico de São Paulo, meio sereno, meio garoa, eu, de casaco e bota, entrei no ônibus, aliviada porque o aquecedor estava ligado. As lâmpadas brancas e frias faziam meus olhos quererem se fechar involuntariamente após terem se acostumado à escuridão da rua. Ao passar pela catraca, notei que a cobradora usava um batom azul celeste, cintilante, muito vivo.

Quando ela respondeu meu boa noite usando um tom animado e acolhedor, eu me senti à vontade para dizer “que chique o seu batom!”, e ela, na ponta da língua, “também amei a cor do seu esmalte!”, e só então me lembrei de que eu estava usando as unhas num tom de azul escuro, bonito porém discreto, bem menos corajosa que ela, que realmente sustentava, com confiança, aquele batom. Agradeci genuinamente e então nós comentamos sobre como a cor azul é linda.

2 respostas a “azul celeste”

  1. Avatar de Mariana
    Mariana

    Como é bom ler suas histórias, me divirto muito! Kkkkkk e agora com a IA te ajudando nas ilustrações, melhor ainda! Adorei

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    1. Avatar de kndrgt
      kndrgt

      obrigada, irna!!! você giu, a gpt está muito ajudadora!!

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