Numa época em que as coisas eram mais simples, antes da pandemia e do césio 137, eu tinha um cachorro chamado Marcelo, de pelo não tão macio nem muito áspero, e muito carismático. As pessoas gostavam de se aproximar do Marcelo porque ele as fazia se sentirem especiais.
Era um sábado comum daqueles frescos e de céu colorido, bem azul, em que o sol esquenta uma das metades do seu rosto enquanto a outra permanece fria, e eu andava com o Marcelo na coleira.
Não tenho dedos suficientes para contar quantas pessoas abordavam meu cachorro em cada passeio que a gente dava na rua. Perguntavam da raça – Marcelo era um vira-lata de porte médio – e da idade – esqueceu de morrer – e sempre diziam que ele se parecia com um lobinho, todo branquinho.
Nesse dia, quase chegando em casa, quase mesmo, faltando apenas uns três ou quatro passos, fui abordado por um morador de rua sentado num pedaço de papelão sujo. O velho me pediu uma ajuda um dinheiro pra comprar uma comida uma cachaça moço por favor, alguma coisa assim, e eu?, eu em geral não respondo nada, passo reto, só que dessa vez me espantei quando falei senhor, eu só tenho esse cachorro. O velho, toma-lá-dá-cá, disse: me dá ele. Seguiu andando Marcelo, e eu, na retaguarda me perguntando por que ofereci o cachorro em doação, fui interrompido no meio dos meus pensamentos com a voz exaltada do morador de rua, novamente: me dá o cachorro.
Assim Marcelo foi embora, o velho com a coleira numa mão e o pedaço de papelão e um cobertor surrado na outra. Rabinho balançando, viraram a esquina.
Entrei em casa meio triste, meio confuso, uma espécie de névoa atrapalhava meus pensamentos enquanto eu tentava entender que havia acabado de me desfazer do meu cachorro, assim, sem mais nem menos, porque um mendigo pediu.
A bem da verdade, eu não gostava muito de ter um cachorro.
Marcelo sempre foi um bom companheiro, não dava trabalho nenhum, só fazia suas necessidades na rua, dormia comigo na cama e me aquecia no inverno, mas ter um cachorro é uma responsabilidade. E isso de vez em quando enche o saco, porque se eu quero comer macarrão instantâneo no jantar, ele não pode, o negócio dele é ração, eu não posso me esquecer de comprar ração e nem de dar as vacinas e nem de dar os remédios de carrapato e nem de dar banho etc.
Então aproveitei a fama de que os mendigos cuidam muito bem de seus cachorros e acreditei ter Marcelo em boas mãos. De repente, eu estava livre. Decidi aproveitar.
A primeira coisa que eu fiz, completamente sem responsabilidades parentais, foi comer na parte interna de um restaurante. A sensação era ótima, só porque era algo novo para mim.
Com o passar do tempo, notei o peso na balança aumentando, possivelmente devido ao fim das caminhadas que eu fazia com o cachorro. Fiquei um pouco incomodado por não ver mais o mendigo na porta da minha casa, como é que eu ia saber como estava o Marcelo?, mas era bom para ele não me ver, poderia querer voltar comigo e isso seria impossível.
Lá pela terceira semana livre de cachorro, estava sentado numa mesa de bar frente à televisão, esperando pelo jogo do Palmeiras, quando vi Marcelo no noticiário. Vi e ouvi, na verdade. E ouvi em português brasileiro, o cachorro estava falando, estava porque estava, eu só tinha bebido meio chopp até o momento, e Marcelo tagarelava algo sobre inflação, os preços no mercado, como o arroz estava caro etc.
Achei impossível que eu estivesse no meu juízo perfeito, mas o pessoal do bar também havia parado para prestar atenção no meu cachorro falando de economia e poder de compra em horário nobre. O velho também foi entrevistado, concordava com ele, e respondendo à curiosidade do repórter disse que o cachorro sempre falou, mas sempre quando?, comigo Marcelo só latia e olhe lá. Fiquei encabulado, com ciúmes, talvez, e não preguei os olhos naquela noite, senti frio mas na cama só havia um cobertor e mais nada.
Depois de mais uns dias, eu só queria voltar a comer nos restaurantes em que eu ia com Marcelo, ter minha rotina de volta, ver a luz do dia de manhã e sentir a brisa leve da noite, horários em que eu saía para passear com Marcelo e comigo mesmo.
Era um sábado frio e ensolarado, exatamente como aquele em que Marcelo se foi, quando, ao sair de casa para comprar pão e uma caixa de leite, topei o mendigo e o cachorro. Deus ouviu as preces que eu nem sabia que havia feito.
Marcelo ficou feliz em me ver. Não feliz do tipo um cão que reconhece imediatamente o seu dono, mas como ele sempre ficava ao ver uma pessoa passar perto dele na rua. Aparentemente eu era isso, então, uma pessoa passando…
Pedi o cachorro de volta. O velho, é claro, não quis devolver, não tinha porquê, mas eu insisti mesmo assim. Diante da dupla negativa, fui ao boteco ao lado, comprei uma cachaça e um salgado da estufa, era um bom plano, ofereci a ele em troca de Marcelo, e enquanto ele analisava a minha solicitação, já com o salgado e a bebida em sua posse, virei as costas e voltei pra casa com o coração na mão e a coleira na outra. Fechava o portão atrás de mim quando o ouvi gritar para eu devolver o cachorro.
Naquele dia Marcelo tomou banho e comeu a ração que ainda estava guardada, esperando por ele, enquanto eu comia meu macarrão. Assistimos TV, dormimos um aquecendo o outro, pensei em todas as coisas boas que ele me proporcionava e até me perguntei se eu era capaz de retribuir à altura.
Só que o Marcelo, depois que voltou pra casa, talvez para evitar um conflito desnecessário e uma discussão que só favoreceria seu lado, não disse mais uma palavra em voz alta.
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